EUA: mudança de governo beneficiará petróleo e carvão

A vitória do republicano Donald Trump nas eleições presidenciais dos Estados Unidos promete alívio para as mineradoras de carvão do país, um impulso para as empresas americanas de petróleo e mais incertezas para as petrolíferas ocidentais que planejam voltar ao Irã, tudo isso em vista das promessas de Trump de reverter oito anos de política energética do governo Obama.

Trump quase nunca detalhou sua política energética, mas seu objetivo é claro. Ele disse que iria revogar leis que pressionassem os setores de carvão e petróleo, que encerraria a participação dos EUA nos esforços globais para conter as mudanças climáticas e reavaliaria o acordo que suspendeu as sanções ao Irã.

As ideias de Trump para o setor de energia “são basicamente a antítese das do governo atual”, afirmou a consultoria JBC Energy.

A vitória de Trump deve ser vista como positiva para as petrolíferas americanas, diz Alexandre Andlauer, líder de petróleo e gás da firma de pesquisa Alphavalue. O presidente eleito prometeu reduzir regulações, eliminar os limites impostos sobre a mineração e exploração de petróleo em terras federais e investir em infraestrutura, como dutos de petróleo e gás natural.

“Em termos relativos, o setor de petróleo e gás é o óbvio vencedor com o novo presidente. Empresas de dutos e prestadores de serviços, em primeiro lugar, depois as empresas de xisto, seguidas pelas tradicionais”, diz Andlauer. “As petrolíferas americanas têm um futuro melhor hoje do que ontem.”

Algumas das mudanças mais drásticas prometidas por Trump estão no setor de carvão, que ainda é a principal fonte de energia do país, juntamente com o gás, mas tem sido atingido por uma onda de pedidos de recuperação judicial, incluindo a da maior mineradora americana, a Peabody Energy Corp. Trump prometeu reverter esse declínio, anulando uma série de regulações que abalaram o setor, como a Lei de Usinas Limpas e a Lei do Ar Limpo, e foram responsáveis pelo fechamento de muitas usinas movidas a carvão, reduzindo a demanda pela commodity. “Vamos pôr nossas mineradoras e siderúrgicas de volta ao trabalho”, disse Trump a uma audiência de empresários do Detroit Economic Club, no início do ano.

Mas muitas dessas promessas podem ser difíceis de cumprir. Um novo presidente não pode facilmente extinguir leis. Além disso, muitos dos problemas do setor de carvão vão além da política americana, dependendo de tendências mundiais que devem persistir sejam quais forem as medidas adotadas por Trump.

O novo governo pode também criar subsídios para as mineradoras, diz Tom Pugh, analista da consultoria Capital Economics. “Ele prometeu reviver o setor de carvão, o que implica apoiar as mineradoras em dificuldades para impulsionar a oferta”, diz.

O apoio de Trump ao carvão pode afetar os produtores de gás natural dos EUA, cujo aumento de produção visto nos últimos anos ajudou a derrubar a indústria carvoeira.

Um estímulo à produção doméstica de carvão poderia liberar gás americano para exportação, direcionando o combustível para mercados já muito abastecidos, como a Europa, ou deprimir ainda mais os preços baixos do gás em função do excesso de oferta global.

Incertezas quanto à política externa de Trump também alimentam uma grande instabilidade no setor petrolífero. Trump é um forte crítico do acordo promovido por Obama para suspender as sanções ocidentais impostas ao Irã em troca da redução do programa nuclear do país.

Antes de tomar uma decisão sobre o Irã, as petrolíferas ocidentais vinham esperando pelo resultado das eleições porque não queriam entrar em conflito com sanções americanas ainda em vigor ligadas ao terrorismo e armas.

Uma exceção foi a francesa Total SA, que na terça-­feira anunciou um acordo de US$ 4,8 bilhões para desenvolver um campo marítimo de gás na parte iraniana do Golfo Pérsico.

Um executivo de outra empresa europeia que está tentando fazer uma parceria com petrolíferas do Irã disse que será difícil seguir os passos da Total depois da vitória de Trump. “Tudo vai desacelerar”, disse ele.

Os mercados de mineração reagiram positivamente à vitória de Trump. Os preços das ações das mineradoras subiram nas bolsas, ajudadas por apostas dos investidores nas promessas de Trump de reviver e reabilitar o setor de manufatura do país. “O mercado está dizendo que o setor de mineração é o grande beneficiado pela vitória de Trump, especialmente os metais preciosos”, diz Jeremy Wrathall, analista sênior da Investec Securities.

Além disso, a desvalorização do dólar está permitindo que as commodities fiquem mais baratas, atraindo compradores.

A oposição de Trump a acordos internacionais e o que os analistas chamam de falta de clareza de políticas, no entanto, podem desacelerar o crescimento econômico global e derrubar os preços das commodities. “A incerteza sobre quem será o presidente foi substituída pelo risco e isso afetará todas as classes de ativos, incluindo as commodities”, diz Neil Williams, economista­-chefe da gestora Hermès Investment Management.

A incerteza em relação ao Irã, por exemplo, derrubou os preços das ações das petrolíferas globais durante o pregão de ontem.