Será o fim das companhias defensivas? – Por Andre Rocha

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Em momentos turbulentos, os consultores indicam ações de companhias defensivas para compor a carteira de seus clientes. A maioria dos gestores também prefere adotar essa estratégia quando as incertezas se avolumam. Mas o que são ações defensivas? Esse conceito permanece válido em uma economia dinâmica como a atual?

Há duas semanas participei de um evento sobre o setor elétrico: “Do ´compliance` ao ´smart grid`: as perspectivas para o setor de energia no Brasil”, organizado pelo Grupo Mídia e pela empresa Full Energy. Na mesa redonda da qual participei, cujo tema era “A matriz energética do Brasil necessita de uma novo marco regulatório?”, Marcos Meireles, presidente da Rio Energy, investidora em projetos de energia renovável, fez uma intrigante observação: com a contínua e disruptiva evolução tecnológica é viável a assinatura de contratos de concessão de longo prazo?

Empresas concessionárias de serviços públicos, em tese, apresentam um monopólio natural. Como o serviço exige pesados investimentos, não existem muitas ofertantes do serviço. Com isso, essas empresas tendem a apresentar: (i) resultados mais estáveis devido ao reajuste das receitas pela inflação passada, (ii) menor volatilidade do faturamento, pois a utilização do serviço não é tão dependente dos ciclos econômicos. Um consumidor residencial pode até gastar menos energia em épocas de crise, mas há um limite para essa redução e (iii) competição mais restrita.

Por essas razões, ações de concessionárias públicas são chamadas de “defensivas”. Por outro lado, papéis de companhias, cujos resultados apresentam maior variação em decorrência dos ciclos econômicos como o setor de commodities e financeiro, são chamadas de “cíclicas”. Ou seja, em períodos de prosperidade, suas receitas apresentam forte crescimento, para caírem significativamente durante as recessões.

A colocação do palestrante me fez pensar na indústria de telecomunicações. A Lei Geral do setor de 1997 serviu de base para a privatização do sistema Telebras no ano seguinte. Quase 20 anos depois, essa legislação já não dá conta da realidade. As empresas privatizadas na época eram divididas por serviços: telefonia fixa, móvel e dados. A tecnologia atropelou esse conceito de segregação de serviços. A modernidade apontou para o oposto do imaginado: a convergência – TV por assinatura, fixo, móvel e dados. Empresas importantes – Brasil Telecom, Embratel, Telemig Celular – foram absorvidas por outras. Além disso, a concorrência surgiu de onde não se esperava. Assim, os contratos de concessão firmados há duas décadas vêm sendo rediscutidos.

Será que o setor de telecomunicações brasileiro ainda pode ser chamado de defensivo? A revolução tecnológica tem eliminado possibilidades de receita e elevado os investimentos. O faturamento com mensagens eletrônicas e com voz vem sendo corroído pelo WhatsApp, pelo Messenger e pelo Skype, apenas para citar alguns novos concorrentes. Além disso, a rede por onde transitam os dados precisa ser atualizada constantemente, drenando recursos. Com isso, os resultados das empresas não têm sido estáveis, basta observar a recuperação judicial da Oi, a maior da história corporativa brasileira. Dessa forma, o consultor que, ao se deparar com a recessão utilizou a regra tradicional ao indicar ações do setor de telecom por serem defensivas, foi prudente?

A tecnologia não avançou tanto no setor elétrico. Mas algumas inovações já indicam um cenário de maior volatilidade no resultado das companhias. Novas fontes de energia geradas por entidades fora do sistema podem aumentar a concorrência tanto na geração como na distribuição. Os “smart grids”, sistemas de distribuição e de transmissão de energia elétrica dotados de recursos de tecnologia da informação, podem aumentar a eficiência dos clientes, reduzindo seu consumo. Embora o “smart grid” possa gerar benefícios também às geradoras e às distribuidoras como o maior controle de fraudes e das perdas operacionais, o consumidor pode ter um importante instrumento a sua disposição para otimizar seu consumo.

É sabida a aversão do cultuado investidor americano Warren Buffett contra empresas de tecnologia. E agora? Como ele agirá em um momento no qual a tecnologia avança para setores antes inalcançáveis?

Assim, a ponderação do palestrante é pertinente. Com alterações frequentes causadas por avanços tecnológicos, os contratos de concessão precisarão ser revistos com maior periodicidade trazendo insegurança aos agentes do setor e aos investidores. Isso sem falar no risco regulatório sempre presente. Logo, o conforto das ações defensivas em momentos de incerteza parece estar com os dias contados.

*Artigo escrito por Andre Rocha

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