segunda-feira, Março 25, 2019
Fontes Energéticas Petróleo e Gás 10 perguntas para Edmilson Moutinho dos Santos, professor da USP

10 perguntas para Edmilson Moutinho dos Santos, professor da USP

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A produção de petróleo offshore, aquela produzida em plataforma no mar, anda em alta no Brasil. Segundo levantamento da Agência Nacional de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP), a produção de petróleo e gás atingiu, em dezembro de 2017, 3,32 milhões de barris por dia. Desse montante, 1,68 milhão veio do pré-sal, maior potencial offshore do país. Em 2010, a produção de petróleo no pré-sal era de 41 mil barris por dia, o que mostra um grande crescimento da exploração no setor.

Mas nem só de pré-sal vive a produção de petróleo brasileira. Apesar da relevância maior do offshore, o país não pode esquecer de outro modelo de produção petrolífera: o onshore, no qual a extração do óleo ocorre em terra. Segundo dados da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro de 2017, a produção onshore foi responsável por uma média de 120 mil barris de petróleo por dia no Brasil. Ao todo, existem 192 campos de exploração nesse segmento no país, sendo que 75% deles ficam na região Nordeste.

Basta olhar para esses dados e perceber que a produção onshore é muito pequena em relação à offshore. Mas, afinal, qual é o potencial do país em produzir petróleo em terra e por que há tamanha diferença entre os modelos onshore e offshore? Edmilson Moutinho dos Santos, especialista em petróleo e professor associado do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (USP), responde essa e outras perguntas relacionadas ao desenvolvimento desse segmento no Brasil. Confira!

1 – Qual é o potencial da produção de petróleo onshore no Brasil?
Responder essa pergunta é sempre muito complicado, porque, para não ser um mero chute, se tem que partir de alguns modelos. O modelo mais conhecido é a curva de Hubbert. Em 2005 foi feito um exercício de aplicar a curva de Hubbert para o Brasil. Foi estimado algo em torno de 4 bilhões de barris onshore no Brasil naquele ano. Com base nessas informações, que mudaram pouco até hoje, podemos estivar reservas de petróleo e gás em torno de 3 bilhões de barris.

2- Por que o onshore não é tão explorado no país?
Porque não é relevante, já que é muito menor do que o volume que a Petrobras tem encontrado no mar. Não é relevante porque, por mais que tenhamos feito esforços importantes ao longo de mais de 50, 70 anos, não encontramos nenhum pré-sal em terra. Não é importante porque tudo isso sempre foi liderado pela Petrobras, então outros operadores vinham “a cavalo”. Como, atualmente, a Petrobras não está mais interessada nisso, nosso modelo regulatório não favorece a entrada de outros investidores que poderiam ver essa área com um outro olhar. Então essas áreas ficam paradas, pois não há uma estruturação do modelo regulatório que permita dar conta disso.

3- Na sua visão, essa é a maior desvantagem para a extração onshore?
Essa é a maior desvantagem para quem poderia olhar esses onshores com algum olhar bacana. O problema é que não há oportunidades, esses negócios ficam na mão da Petrobras e ela não consegue privatizar. É preciso criar um sistema regulatório a partir da Agência Nacional de Petróleo focado no onshore, e aí será possível atrair as empresas corretas.

4- No cenário atual, quais são as vantagens para se investir no onshore?
Não é uma questão de ser vantagem ou não ser vantagem. Essas áreas poderiam ser atrativas, primeiro porque são áreas muito mais fáceis de se trabalhar, do ponto de vista geológico. Quando o preço do petróleo subiu muito entre 2001 e 2008, essas áreas estiveram em alta. Chegaram a atrair muitos investidores nacionais. Inclusive, muitos pequenos investidores, que participaram de leilões. Com a queda do preço do petróleo e depois com essa instabilidade que surgiu no mercado, ficou mais difícil atrair investidores brasileiros e os poucos investidores que investiram nesses negócios eram as empresas de construção civil. Mas muitas dessas empresas nacionais hoje estão quase à beira da falência, tentando se livrar dos problemas jurídicos de operações contra corrupção. Estão descapitalizadas, cortando custos e deixando o setor de exploração de petróleo

5- No onshore a tecnologia brasileira é tão desenvolvida quanto no modelo offshore?
Não é necessária aplicação de grande tecnologia, são recursos muito mais simples. A dimensão dos desafios tecnológicos é menor, tanto do ponto de vista geológico e logístico, quanto ambiental. Trabalhar em terra é muito mais fácil que trabalhar a 400 quilômetros da costa, sob 3 mil metros de água e ainda ter que perfurar poços de 10 quilômetros, passando por rochas salinas, entre outras dificuldades que o pré-sal impõe. No onshore não se fala de nada disso. Estamos falando de tecnologias mais do que consolidadas, todas no exterior, que aqui não observamos com plenitude. Primeiro porque não temos os investidores nacionais para absorvê-las, segundo porque a Petrobras absorvia quando necessário fosse, mas como foi perdendo interesse nisso….

6- Qual é o maior desafio do onshore brasileiro?
O desafio do nosso onshore é saber aproveitar as oportunidades. Quando sobraram sondas nos Estados Unidos, algum tempo atrás, quando caiu o preço do petróleo, muitas sondas de perfuração onshore ficaram paradas. Essas sondas poderiam ter sido importadas, para criar um mercado de sondas no Brasil. Esse material está no exterior. Para se trazer para o Brasil, vai ser cobrado todo o ágil necessário, incluindo riscos de câmbio, além de recursos potencialmente pequenos. Então o desafio é trazer empresas que tenham seus próprios equipamentos e que possam ter interesse em trazê-los para o Brasil.

7- Atualmente, onde se tem maior produção onshore no país?
Os nossos centros de onshore são principalmente a Amazônia, o Rio Grande de Norte, que já foi o segundo maior estado produtor do Brasil, mas que perdeu espaço para São Paulo, Recôncavo Baiano e Maranhão.

8- Em que posição o Brasil aparece no mercado mundial de produção onshore?
O Brasil é muito importante no offshore, mas tem pouca relevância no onshore. Mas vale lembrar que o offshore representa apenas 30% da produção mundial. Os outros 70% da produção mundial vêm do onshore. A maior parte da produção norte-americana, por exemplo, é onshore. O coração do petróleo da Rússia e da Arábia Saudita também é onshore, assim como na Venezuela. Os grandes produtores mundiais de petróleo exploram o onshore, o Brasil é uma exceção.

9- Em setembro do ano passado o Ministério de Minas e Energia publicou o relatório do Programa de Revitalização das Atividades de Exploração e Produção de Petróleo e Gás Natural em Áreas Terrestres (REATE). Qual sua avaliação sobre isso?
O relatório faz todo sentido. Não há nenhum milagre que precisa ser feito, são coisas simples. O desafio é criar um novo modelo de negócio para viabilizar a descoberta e a extração desses barris em potencial. São condições geológicas relativamente simples, não há nada que o governo tenha dito que precisa ser feito que seja mágico. Não precisa de mágica, precisa de capital e de um pouquinho de tecnologia.

10- Existe outra forma de explorar o onshore no Brasil?
Há um potencial ainda pouco conhecido e que exige um tratamento ainda mais sofisticado, que é o petróleo onshore não-convencional. Isso significa que o Brasil pode vir a ter óleo e gás não convencional. Coordeno aqui na USP o único projeto de pesquisa nessa linha, de pensar os recursos gerais do Brasil. Lembrando que os recursos não convencionais dos Estados Unidos tiveram um efeito até maior que o pré-sal no Brasil. Proporcionaram uma revolução energética no país norte-americano. Mas aqui sequer temos condições de estimá-los. Mas mesmo assim são importantes, são suficientemente relevantes para merecer atenção do governo. Não foi criado um modelo de negócios para o onshore convencional. Menos ainda para o onshore não convencional, que poderia um dia vir a ser importante, mas que ainda padece de condições precárias no país.

Esta matéria foi publicada na 33ª edição da revista Full Energy.