O Brasil avança na consolidação de sua infraestrutura energética para sustentar a crescente demanda por data centers, especialmente aqueles voltados à inteligência artificial (IA) e computação de alta densidade. Iniciativas privadas e públicas estão moldando um cenário no qual a eletrificação, a resiliência da rede e a energia renovável se tornam pilares para atrair investimentos e garantir continuidade de serviços críticos.
De acordo com projeções oficiais, data centers devem atrair cerca de US$ 3 trilhões em investimentos nos próximos cinco anos, com o Brasil figurando como um dos maiores destinos na América Latina devido à capacidade instalada, condições climáticas favoráveis e matriz elétrica predominantemente renovável — um diferencial competitivo frente a outras regiões.
Integração energética
Um dos desdobramentos mais relevantes dessa dinâmica é a recente colaboração entre a Hitachi Energy e a RT‑One para apoiar a construção da maior plataforma de data centers de IA da América Latina. O projeto contempla um megacampus em Uberlândia (MG), um segundo em Maringá (PR) e um terceiro local em avaliação. A iniciativa é estruturada para posicionar o Brasil como um hub global de computação de alto desempenho, energia limpa e soberania digital.
Segundo Fábio Nugnezi, Diretor de Marketing e Vendas da Hitachi Energy no Brasil, “firmamos este acordo com a RT‑One porque acreditamos no potencial do Brasil como um hub global para IA e data centers”. A empresa fornecerá soluções de sistemas elétricos de alta tensão e integração à rede, com foco em eficiência energética, confiabilidade e resiliência aos níveis exigidos por operações críticas.
As tecnologias projetadas serão capazes de integrar de forma segura à rede elétrica, oferecendo flexibilidade para expansões futuras e robustez para lidar com picos de demanda típicos de ambientes intensivos em computação.
Energia renovável
No plano de abastecimento energético para data centers, o Brasil já registra acordos emblemáticos. Um exemplo é o contrato de mais de US$ 500 milhões entre a Casa dos Ventos e a Ascenty, considerado o maior acordo de energia renovável para data centers na América Latina, com geração total superior a 1,5 GW a partir de fontes solar e eólica. Esses ativos deverão fornecer cerca de 110 MW médios de energia limpa, fortalecendo a capacidade energética da Ascenty para suportar o aumento de demanda de seus sites.
Esse tipo de integração entre geração renovável e consumo intensivo é reflexo de uma visão de longo prazo: a eletrificação digital exige não apenas energia em volume, mas energia com criticidade de qualidade, disponibilidade e sustentabilidade. Para a Ascenty, o acordo “amplia a flexibilidade operacional e contribui para um planejamento energético mais robusto ao longo do tempo de contrato”.
Brasil na rota global dos investimentos
Dados recentes do governo indicam que o Brasil responde por cerca de metade do mercado de data centers da América Latina, com cerca de 200 empreendimentos ativos no país. Estimativas de investimentos para os próximos anos variam entre R$ 60 bilhões e R$ 100 bilhões, reflexo da forte expansão de serviços de nuvem, IA, edge computing e infraestrutura digital corporativa.
Esse crescimento está intrinsecamente ligado à evolução da matriz elétrica: com mais de 80% de sua capacidade instalada proveniente de fontes renováveis, o Brasil reduz exposição a combustíveis fósseis e volatilidade de preço, atributos valorizados por grandes consumidores de energia intensiva, como data centers e operações de IA.
Desafios e perspectivas
Apesar das oportunidades, o desenvolvimento dessa infraestrutura enfrenta desafios técnicos e regulatórios. A integração de grandes cargas de computação exige atenção à capacidade de transmissão de alta tensão, requisitos de conexão à rede e regimes de despacho que garantam confiança no fornecimento. A atual discussão setorial envolve também estímulos regulatórios, regimes tarifários e incentivos que favoreçam contratos de energia de longa duração com previsibilidade.
A presença de players globais e a capacidade de atrair projetos de grande escala, como o megacampus da RT‑One com apoio da Hitachi Energy, posicionam o Brasil de forma competitiva, mas exigem coordenação entre agentes públicos e privados para criar um ambiente de investimentos estável.
A evolução da infraestrutura energética para data centers, combinada com energia renovável e coordenação estratégica de contratos de longo prazo, está transformando o Brasil em um protagonista regional e global. Conectar capacidade de geração, resiliência de rede e demanda digital intensiva será um dos principais desafios — e oportunidades — para o setor energético nos próximos anos.




















