Com trajetória internacional e protagonismo no Brasil, Markus Vlasits se consolidou como uma das principais vozes do armazenamento de energia. À frente da NewCharge e da ABSAE, atua para estruturar o setor e acelerar a transição energética no país
Referência quando o assunto é armazenamento de energia no Brasil, Markus Vlasits construiu uma trajetória marcada pela visão estratégica, pela vivência internacional e pelo protagonismo na transição energética. Com mais de 19 anos de experiência no setor, iniciou sua carreira na Alemanha, passando por empresas globais como McKinsey & Company e Q.Cells, antes de atuar em posições-chave no mercado brasileiro, onde liderou operações da Yingli Green Energy e cofundou a Faro Energy.
“O armazenamento não é um acessório das renováveis, mas uma infraestrutura estratégica do sistema elétrico.”
À frente da NewCharge desde 2020, Markus tem se dedicado ao desenvolvimento de soluções de armazenamento com baterias, tecnologia considerada essencial para a consolidação das fontes renováveis e para a segurança do sistema elétrico. Em paralelo, assumiu papel central na articulação institucional do setor ao liderar a estruturação do Grupo de Trabalho de Armazenamento da ABSOLAR e, em 2023, ser eleito presidente do Conselho de Administração da ABSAE – Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia.
Reconhecido como uma das vozes mais ativas e técnicas do segmento, Markus participa de debates estratégicos, contribui para a construção de políticas públicas e atua diretamente no avanço do marco regulatório do armazenamento no país. Nesta entrevista, ele compartilha sua visão sobre carreira, liderança, inovação, desafios regulatórios e o papel decisivo do armazenamento na transição energética brasileira.
“Sem clareza regulatória e coordenação institucional, o armazenamento não avança, mesmo quando a tecnologia já está madura.”
Confira a entrevista a seguir:
1. Você começou sua carreira na Alemanha e passou por diferentes áreas dentro da cadeia fotovoltaica. Como essa vivência internacional moldou sua visão sobre energia e inovação?
Minha trajetória internacional me permitiu acompanhar de perto a maturação do setor solar fotovoltaico em mercados internacionais, como a Alemanha e os Estados Unidos, e depois sua adaptação a mercados emergentes como o Brasil. Ao longo desse caminho, ficou evidente que o armazenamento seria o próximo elo essencial da transição energética. No Brasil, a tecnologia já estava madura e o interesse do mercado era claro, mas faltava um enquadramento regulatório e uma representação institucional específica. A ABSAE surge justamente para organizar esse setor, dar voz técnica ao armazenamento e acelerar sua integração ao sistema elétrico.
2. Depois de anos no setor solar, o que o levou a focar especificamente em soluções de armazenamento de energia, uma área que hoje é considerada crucial para o futuro do setor elétrico?
Sempre fui fã de energias renováveis e, enquanto implantava projetos de geração distribuída, fiquei com a curiosidade de como tornar aquela energia renovável intermitente em fonte firme e controlável. Este foi o ponto de partida para minha jornada pelo mundo do armazenamento. Observando e estudando as iniciativas de descarbonização e transição energética em mercados do hemisfério Norte, ficou clara a relevância do armazenamento como atividade estratégica. Também ficou evidente que o armazenamento só avança quando há clareza regulatória, coordenação institucional e visão de longo prazo. Em países onde o armazenamento se consolidou, ele foi tratado como infraestrutura estratégica, e não como um acessório das renováveis. Essa visão orienta a atuação da ABSAE no Brasil, sempre buscando adaptar boas práticas internacionais à realidade do nosso sistema elétrico.
3. O Brasil vive um crescimento acelerado nas fontes renováveis. Na sua visão, qual é hoje o maior desafio para que o país incorpore o armazenamento de energia em larga escala?
O maior desafio não é tecnológico, mas regulatório e de mercado. As soluções já existem e são competitivas, mas ainda faltam mecanismos claros de contratação e remuneração dos serviços prestados pelas baterias. Hoje, há cerca de 18 GW em projetos de armazenamento já desenvolvidos no país aguardando definições regulatórias, o que evidencia o potencial represado do setor.
4. Quais tecnologias de armazenamento você acredita que serão decisivas no Brasil nos próximos anos, baterias, hidrogênio, híbridos? E por quê?
No curto e médio prazo, as baterias de íon-lítio serão protagonistas no Brasil, especialmente as de lítio-ferro-fosfato, pela maturidade tecnológica, queda de custos e versatilidade de aplicações. Temos várias novas tecnologias que em breve poderão se tornar relevantes, como, por exemplo, as baterias de íons de sódio. Em um horizonte de tempo mais longo, o hidrogênio verde poderá ganhar relevância, especialmente para armazenamento de longa duração e setores difíceis de eletrificar. Importante também destacar soluções híbridas, compostas por sistemas de armazenamento e fontes renováveis para geração off-grid, que já são altamente competitivas em comparação com fontes fósseis.
5. Quais foram os principais fatores, regulatórios, tecnológicos ou de mercado, que motivaram a criação da ABSAE e evidenciaram a necessidade de uma entidade dedicada exclusivamente ao tema do armazenamento?
A criação da ABSAE foi motivada por uma combinação clara de fatores. Do ponto de vista tecnológico, o armazenamento atingiu maturidade e viabilidade econômica. Do lado de mercado, havia um volume crescente de projetos e investimentos prontos para avançar. Já no aspecto regulatório, existia uma lacuna evidente: o armazenamento não tinha enquadramento jurídico próprio nem representação institucional estruturada. A ABSAE nasceu justamente para preencher esse vazio, organizar o setor e atuar de forma técnica e coordenada junto ao poder público.
6. A ABSAE reúne empresas com atuação diversa ao longo da cadeia de armazenamento de energia. Como a sua experiência internacional e a interação com mercados mais maduros influenciam a percepção e a atuação estratégica da associação no Brasil?
A experiência internacional mostra que o armazenamento só se desenvolve plenamente quando há coordenação entre política pública, regulação e mercado. Em mercados mais maduros, como Europa, Estados Unidos e Austrália, o armazenamento foi tratado desde cedo como infraestrutura estratégica do sistema elétrico. Essa referência orienta a atuação da ABSAE no Brasil, com foco em segurança jurídica, modelos de remuneração claros e integração do armazenamento ao planejamento energético, respeitando as especificidades do sistema brasileiro.
7. A agenda de armazenamento avança rapidamente e exige atuação coordenada entre governo, reguladores e setor privado. Quais princípios, diretrizes ou práticas a ABSAE considera fundamentais para liderar esse processo?
A ABSAE atua com base em três princípios centrais. Primeiro: técnica e dados, para qualificar o debate regulatório com estudos e evidências econômicas. Segundo: diálogo institucional contínuo, mantendo relacionamento construtivo com governo, reguladores e Congresso. Terceiro: visão sistêmica, tratando o armazenamento como ativo transversal, capaz de gerar eficiência, reduzir custos e aumentar a segurança do sistema. Esses pilares permitem representar o setor de forma responsável e orientada ao interesse público.
8. O marco regulatório tem avançado, mas ainda há lacunas. Qual mudança regulatória você considera mais urgente para destravar novos projetos de armazenamento no país?
O avanço recente do marco legal é importante para integrar o armazenamento de energia como atividade própria dentro do setor elétrico, com múltiplos serviços e aplicações. Agora é o momento de concretizar esse avanço via regulação, para garantir segurança jurídica e viabilidade econômica aos projetos. Em um plano macro, o avanço do armazenamento será diretamente afetado pelas mudanças na governança do setor elétrico, especialmente em regras tarifárias e metodologias de precificação da energia elétrica. Com relação à regulamentação, temos três tópicos de especial relevância, além de uma série de outros temas em discussão: a) esclarecimento sobre o rateio dos encargos para o leilão de capacidade; b) implantação do programa ampliado de resposta da demanda e geração; e c) implantação do mecanismo REIDI para sistemas de armazenamento, conforme previsto na Lei nº 15.269.
9. Como você enxerga o papel do armazenamento na transição energética brasileira nos próximos 5 a 10 anos?
É inquestionável que a transição energética brasileira será marcada por uma participação cada vez maior de fontes renováveis variáveis e uma crescente descentralização da geração. Os desafios causados por essa transição estão ficando cada vez mais evidentes, como o crescente vertimento de geração limpa e competitiva, o déficit de potência durante a ponta noturna e o aumento da vulnerabilidade do sistema elétrico em relação a distúrbios. Sem falar das dificuldades enfrentadas por um número crescente de empresas do setor de renováveis. Nesse cenário, o armazenamento é a única tecnologia capaz de resolver tanto o problema do vertimento quanto o déficit de potência, além de contribuir para a estabilidade sistêmica, e tudo isso de forma muito célere. Vejo um papel muito relevante para o armazenamento de energia, tanto em aplicações de grande escala, prestando serviços ao sistema elétrico como um todo, quanto em pequena escala, como ferramenta de modicidade e segurança energética. Adicionalmente, o armazenamento é imprescindível para permitir a descarbonização da matriz elétrica da Amazônia, hoje dominada por fontes fósseis caras e poluentes.
10. Para quem está ingressando agora no mercado de energia e vê o armazenamento como oportunidade: qual conselho você daria?
Meu conselho é investir em conhecimento e ter visão de longo prazo. O armazenamento está hoje onde a energia solar estava há alguns anos: enfrentando desafios iniciais, mas com enorme potencial de crescimento. Quem se qualificar agora, se conectar ao ecossistema e entender tanto a parte técnica quanto a regulatória estará bem-posicionado para liderar esse mercado no futuro.















