Debatedores manifestam preocupação com dejetos e custo de energia nuclear

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Ex-diretor geral da Agência Francesa pela Controle da Energia, Bernard Laponche diz que é preciso aperfeiçoar as ações de proteção para evitar quaisquer riscos de acidentes nas usinas nucleares \ Foto: Divulgação
Ex-diretor geral da Agência Francesa pela Controle da Energia, Bernard Laponche diz que é preciso aperfeiçoar as ações de proteção para evitar quaisquer riscos de acidentes nas usinas nucleares \ Foto: Divulgação

O impasse quanto ao que fazer com os rejeitos na produção de energia nuclear foi um dos temas, na tarde desta terça-feira (27), do seminário Usinas Nucleares — Lições da Experiência Mundial. Patrocinado pela Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática (CCT), o seminário, que termina amanhã, tem o objetivo de discutir os benefícios e os riscos da energia nuclear.

O físico francês Bernard Laponche explicou como as usinas normalmente lidam com os dejetos e admitiu que o assunto é um problema “considerável e grande”. Segundo Laponche, que é ex-funcionário do Comissariado de Energia Atômica da França (CEA) e ex-diretor geral da Agência Francesa pelo Controle da Energia (hoje Adema), as filosofias da geração de energia do século 20 já se tornaram obsoletas.

— Todo mundo já percebeu que é preciso mudar o sistema energético — declarou Laponche, lembrando que o Brasil é um país privilegiado quanto às possibilidades de geração de energia limpa.

O físico sublinhou que, quando começou a construção das usinas nucleares, os acidentes graves não estavam previstos, pois eram considerados “impossíveis” de acontecer. Segundo Laponche, os dejetos radioativos ligados à indústria eletrônica e nuclear podem poluir o chão, os mangues e os rios. Assim, é preciso ações de proteção para evitar quaisquer riscos. Ele ponderou, no entanto, que é difícil prever a reação das usinas a acidentes naturais.

Laponche ainda observou que muitos países têm pensado em reservas subterrâneas ou em minas de sal para armazenamento de lixo nuclear, mas admitiu que, por hora, não há solução satisfatória. Ele lamentou que, depois de poluir o ar e o mar, o homem ainda venha a poluir o solo, ao enterrar milhares de toneladas de lixo radioativo ao redor do planeta.

— É importante saber o que está acontecendo, por exemplo, com as piscinas de Angra 1 — alertou Laponche, fazendo referência às áreas de reserva de dejetos da usina brasileira.

Custo

Laponche também afirmou que, nos Estados Unidos, as energias eólica e elétrica hoje são mais baratas que a energia nuclear. Ele destacou a situação de Portugal que, em poucos anos, deve ter toda a produção de energia de origem renovável. Segundo o estudioso, o Brasil tem grande potencial, principalmente no Nordeste, para a produção de energia eólica.

O professor Luiz Pinguelli Rosa, doutor em Física e ex-presidente da Eletrobras, classificou como positivo o crescimento da energia eólica e da energia solar em muitos países. No Brasil, registrou Pinguelli, a geração de energia eólica é a que mais cresce. Ele reconheceu, porém, que a energia solar apenas “engatinha” e precisa rever algumas estratégias.

— O Brasil precisa de uma política de incentivo, pois o custo para essas energias é alto. O retorno, no entanto, é positivo — declarou Pinguelli, acrescentando que não considera a energia nuclear a mais adequada para o país.

Para Pinguelli, a produção de energia nuclear precisa entrar “em compasso de espera”. Ele disse que o custo é alto e crescente e não há no horizonte soluções para o problema da segurança. Além disso, acrescentou o professor, novas tecnologias podem surgir e apontar outros caminhos para a geração de energia.

— O Brasil tem muitas outras formas de geração de energia elétrica — declarou.

Seminário

O seminário, que ocorre no Auditório Interlegis até esta quarta-feira (28), tem como objetivo discutir os benefícios e os riscos da energia nuclear. Foram convidados para o evento, especialistas, cientistas e autoridades da área do Brasil e de cinco países. Segundo o senador Cristovam Buarque (PDT-DF), presidente da CCT, as conclusões do encontro serão reunidas em uma carta a ser enviada ao governo.