O setor elétrico brasileiro entra em 2026 diante de um paradoxo estrutural: ao mesmo tempo em que amplia rapidamente sua capacidade instalada, sobretudo a partir de fontes renováveis, enfrenta desafios crescentes relacionados à segurança do sistema, à flexibilidade operacional e à necessidade de modernização da infraestrutura.
Para Nunziante Graziano, CEO do Grupo GIMI Soluções em Energia, o ponto de partida para compreender o próximo ciclo está no desempenho recente do sistema e nas decisões institucionais tomadas em 2025.
“O Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) afirmou que o sistema elétrico teve excelente desempenho em 2025 e aprovou ferramentas estratégicas para 2026, como as curvas de referência de armazenamento (CRef), que ajudam a prever necessidades de geração e administrar o risco hidrológico.”
A demanda crescente por energia é impulsionada principalmente pela retomada industrial, pela eletrificação de processos produtivos e pela expansão do mercado livre. Esse movimento ocorre em paralelo à entrada acelerada de novos empreendimentos de geração, ampliando a complexidade da operação do Sistema Interligado Nacional (SIN).
Protagonismo das renováveis
A expectativa de crescimento da geração reforça o papel estratégico do Brasil no cenário energético global. De acordo com projeções da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), o país deverá adicionar aproximadamente 9,1 GW de potência instalada em 2026, volume superior ao registrado em 2025.
Esse avanço diz respeito a uma matriz predominantemente limpa. Atualmente, mais de 84% da capacidade instalada nacional provém de fontes renováveis, índice que posiciona o Brasil como líder entre as grandes economias.
Para Graziano, o crescimento é positivo, mas exige atenção: “Apesar do desempenho positivo, episódios anteriores de afluências abaixo da média em regiões críticas mostram que o setor ainda depende do bom manejo de recursos hidrológicos e de termelétricas para equilíbrio entre oferta e demanda.”
Esse cenário explica por que a segurança energética deixa de ser apenas uma questão de expansão e passa a envolver planejamento sistêmico e flexibilidade.
Descentralização da geração
Entre as principais transformações estruturais para 2026 está o avanço da geração distribuída. A expansão da micro e minigeração, sobretudo solar fotovoltaica, segue em ritmo acelerado. Esse crescimento amplia a descentralização da matriz, mas também impõe novos desafios técnicos às redes.
“A participação de micro e minigeração distribuída tende a aumentar, reforçando a descentralização da geração, com projeções elevadas de crescimento nos próximos anos”, afirma Graziano.
O movimento contribui para democratizar o acesso à energia, mas exige redes mais inteligentes, equipamentos adequados e regulações capazes de lidar com fluxos bidirecionais e variações rápidas de carga.
Armazenamento de energia
Se a geração renovável cresce, a capacidade de torná-la confiável passa a depender diretamente do armazenamento. Esse tema aparece de forma recorrente tanto nas análises setoriais quanto na avaliação do executivo: “Tecnologias de armazenamento de energia se tornam centrais para integrar renováveis intermitentes e melhorar a confiabilidade do sistema.”
Estudos do setor apontam 2026 como um marco para a consolidação dos sistemas BESS (Battery Energy Storage Systems), especialmente após o avanço dos Leilões de Reserva de Capacidade com foco em armazenamento, conduzidos pelo Ministério de Minas e Energia.
Na avaliação de Graziano, existe uma condição essencial para a sustentabilidade do modelo: “O caminho é sempre na direção das energias renováveis, entretanto, é necessário torná-las despacháveis. Sem isso, o desafio de seu emprego é maior que não tê-las.”
Digitalização do sistema elétrico
A transição energética não ocorre apenas na geração. Ela depende diretamente da modernização das redes de distribuição e transmissão.
“A adoção de smart grids, medição inteligente e sistemas de IA para monitoramento e automação de redes deve ganhar força”, afirma o CEO.
Nesse sentido, a digitalização será fundamental para lidar com a superoferta de energia, reduzir perdas, ampliar a previsibilidade e permitir respostas mais rápidas a falhas operacionais.
Ao mesmo tempo, o avanço tecnológico traz desafios relevantes, como altos investimentos iniciais, adequações regulatórias, cibersegurança e gestão de dados, fatores que entram definitivamente na agenda estratégica das empresas do setor.
Infraestrutura elétrica e soluções em média tensão
A expansão da geração distribuída e dos sistemas híbridos aumenta a relevância das soluções de média e baixa tensão, consideradas essenciais para a integração das novas fontes. “As conexões entre sistemas são todas realizadas através de soluções de média tensão”, explica Graziano.

Ele destaca o avanço de cubículos modulares padronizados, alinhados às normas IEC, com sensores de baixa potência e maior eficiência energética: “Os custos dessas novas soluções são muito mais competitivos que os anteriores, o que aprimora sua aplicação e viabiliza a transição tecnológica.”
Esse movimento acompanha a necessidade de redes mais compactas, inteligentes e preparadas para fluxos energéticos cada vez mais dinâmicos.
Agenda ESG e o fim do SF6
A sustentabilidade também passa a influenciar diretamente decisões tecnológicas. Um dos marcos regulatórios mais relevantes para 2026 vem da Europa, com a proibição progressiva do uso do gás SF6 em equipamentos elétricos. O CEO destaca: “A comunidade europeia decidiu, através de uma diretriz, proibir o uso de SF6 em equipamentos elétricos de média tensão até 24 kV a partir de 1º de janeiro de 2026.”
O regulamento europeu estabelece cronograma até 2032 para eliminação total do gás, considerado um dos mais nocivos ao efeito estufa. Para Graziano, esse exemplo é uma iniciativa clara na direção da sustentabilidade, que deve ser seguida pelo resto do mundo nas próximas décadas. A tendência reforça a integração entre engenharia elétrica e metas ESG, tornando o tema cada vez mais estratégico para a indústria.
Regulação e decisões estratégicas
Apesar dos avanços tecnológicos, a incerteza regulatória segue como ponto sensível para o setor. Na avaliação do executivo: “Nos falta, sem dúvida, um ambiente onde um agente exerça seu papel de regente de políticas de Estado e determine os caminhos a seguir, não apenas os ventos do mercado e dos interesses econômicos, mas sobretudo, direcionados ao Bem Comum.”
Ainda assim, Nunziante Graziano ressalta que o momento exige protagonismo das empresas: “Investir é preciso e as melhores oportunidades são reservadas aos pioneiros.”
A leitura conjunta dos dados setoriais e das avaliações técnicas aponta para um setor elétrico em transformação estrutural. O Brasil reúne vantagens competitivas relevantes, como matriz limpa, escala de mercado e potencial renovável, mas enfrenta o desafio de integrar crescimento, segurança e sustentabilidade.
Para 2026, o foco se desloca da simples expansão da capacidade instalada para a construção de um sistema mais flexível, digital e resiliente, no qual armazenamento, modernização das redes e regulação adequada serão determinantes para garantir competitividade econômica e confiabilidade energética.




















