Futuro brilhante para a Geração Distribuída

Carlos Evangelista, presidente da Associação Brasileira de Geração Distribuída

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Em 2012, a ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica) regulamentou a resolução 482, permitindo que cada consumidor produza a própria energia, injetando o excedente na rede de distribuição. Surgia o marco da Geração Distribuída no Brasil. Na esteira do desenvolvimento deste segmento no país, nasceu, em 2015, a ABGD (Associação Brasileira de Geração Distribuída), congregando as empresas que têm como atividade principal ou atividade estratégica a geração distribuída a partir de fontes renováveis de energia – solar fotovoltaica, biogás, eólica, biomassa, PCH. Segundo Carlos Evangelista, presidente da ABGD (Associação Brasileira de Geração Distribuída), o potencial do setor no país é muito grande e tende a crescer exponencialmente nos próximos anos.

Engenheiro eletrônico e pós-graduado em Marketing e Política Estratégica, Evangelista comanda uma Associação que começou tímida, com 15 empresas, mas que cresce na mesma toada do segmento. Hoje, já conta com 480 empresas no quadro de associados. Nesta edição da Revista Full Energy, ele fala sobre o crescimento, os desafios e as novas tendências da geração distribuída no país.

Qual a sua avaliação sobre a progressão e o avanço da Geração Distribuída no país?

A GD foi regulamentada em 2012. No início, houve um desconhecimento dos players do mercado e até mesmo das distribuidoras, por ser uma regulamentação muito nova. Por isso, começou de maneira muito tímida, com poucas ligações. Mas depois aumentou bastante, as pessoas passaram a conhecer sobre energia solar fotovoltaica e geração distribuída. Isso ajudou muito a aumentar o número de ligações no país. Mas, apesar de tudo isso, dessas 29 mil ligações, ainda é um patamar pequeno se comparado ao setor em outros países. Por exemplo, a Alemanha tem 1,5 milhão de ligações, a Califórnia tem 900 mil ligações. O universo brasileiro tem 83 milhões de potenciais consumidores de baixa tensão que poderiam ir para a geração distribuída.

O que é entrave para o desenvolvimento desse setor?

Passamos por um momento econômico no país que não atrapalhou somente a geração distribuída. Atrapalhou vários outros negócios. É claro que há carência de boas linhas de financiamento. A falta de financiamento com juros razoáveis atrapalhou bastante. Às vezes existem algumas linhas de financiamento no país que têm juros bastante atrativos, mas tem a exigência do conteúdo nacional e como as placas ainda são o elemento mais importante no sistema fotovoltaico, a gente tem poucas opções de fabricações nacionais de módulos fotovoltaicos. Eles custam mais caro e isso realmente atrapalhou um pouco a geração distribuída a deslanchar no Brasil. A nossa cadeia produtiva ainda não está completa no país. Um segundo entrave é o desconhecimento da população nessa área. Não se sabe que é possível produzir e consumir a própria energia e de forma mais barata do que a própria distribuidora de energia pode fornecer. Um terceiro entrave é a dificuldade que as distribuidoras têm de fazer uma conexão de maneira simples e rápida, não por má-fé, mas por desconhecimento mesmo. Às vezes as documentações e as exigências são totalmente descabidas e desalinhadas com a regulamentação. Isto ocorre na maioria das vezes por desconhecimento.

Já temos arcabouço político e regulamentar suficiente para estimular esse setor?

A resolução 482 pode ser melhorada, mas é uma das mais bem feitas do mundo. Porém, poderia ter isenção de ICMS, porque existe uma linha jurídica forte que diz que nem deveria ser cobrado ICMS. Não há troca de titularidade e se não há troca de titularidade, não existe o fato gerador de ICMS. Nem se deveria falar em cobrar ICMS de energia injetada na rede, uma vez que você empresta para a distribuidora e depois pega de volta. Mas, no entanto, temos o convênio que dá isenção e está resolvendo parcialmente esse problema. Temos a atualização do convênio, que isentou a energia do ICMS de tudo o que se consome. Só se paga o ICMS sobre as diferenças de energia que você produziu e consumiu.

A energia solar desponta como a grande fonte em geração distribuída no país. E o potencial de outras fontes?

Sou oriundo da área solar fotovoltaica. Das mais de 29 mil ligações de GD que temos no país hoje, cerca de 96% correspondem à fonte solar fotovoltaica em números de conexões. Mas se você pegar em termos de potência, isso cai para 69% de origem solar fotovoltaica. E mais do que isso: se você considerar energia injetada, porque realmente injeto na rede em termos de energia, a solar fotovoltaica cai para 53%. Temos 480 empresas associadas na ABGD, e as do setor solar fotovoltaico são maioria, seguido pelos setores de PCH (Pequenas Centrais Hidrelétricas), biogás, biomassa e eólica.

Por que a solar fotovoltaica se destaca tanto?

O motivo que ela se deu tão bem com a GD e vice-versa é porque tem esse combustível em todo lugar. Tenho sol em todos os pontos. A biomassa tem que estar próxima da casca de arroz ou do bagaço de cana; para gerar PCH precisa ter um rio, tem que estar próximo de uma queda d’agua, e por aí vai. Já o sol eu tenho em todo lugar e o custo tem caído a cada ano. Além disso, é modular e consigo começar pequeno e crescer. São características que não encontro nas outras fontes. De qualquer forma, todas são importantes, cada uma com suas particularidades. Para a GD, principalmente em cima dos telhados, sem dúvida a solar fotovoltaica é a mais adequada. E a geração eólica, para ser eficiente, precisa de ventos fortes e constantes, senão fica inviável economicamente.

Qual é o perfil do público de GD hoje no país?

Os primeiros interessados foram os formadores de opinião na área de residência, porque são sistemas menores. Mas atualmente está crescendo muito a área comercial e industrial. São sistemas de maior porte em empresas que têm interesse em baixar a fatura de energia. Então, eles gastam R$ 100, R$ 120 mil e querem que caia para R$ 20 mil. Portanto, colocam um sistema solar fotovoltaico para produção da maior parte da energia que usam. E está aumentando muito o interesse dos setores comercial e o industrial, que antes eram minoria. E o interesse é sempre pela geração de créditos, a regulamentação não permite a venda de energia. Então, do que se produz, consome-se o principal. O excedente que não se consumiu é ofertado na rede para usar em até 5 anos. A ANEEL, na resolução 687 de 2015, criou novos modelos de negócio, nos quais se consegue compartilhar essa energia excedente com outras empresas, contanto que se forme um consórcio entre essas empresas ou com outros consumidores de pessoa física.

No Brasil também ganha força a figura do prosumidor.

Essa é uma tendência mundial. Esse termo foi inventado para designar a pessoa que produz e consome o mesmo produto, no caso a energia. No fundo, todo mundo quer se livrar da empresa de comunicação, então a gente usa o whatsapp e o skype. Além do táxi, temos a opção de usar uber ou 99. E também gostaríamos de nos livrar das empresas de energia e produzir a nossa própria energia. Uma vez que consigo produzir durante o dia, posso gerar com a energia solar fotovoltaica. E a noite pego de volta da rede. Quando chegarem as baterias, que tanto se tem falado – se prevê que chegarão forte no mercado daqui uns dois anos – vou conseguir durante o dia usar essa energia e recarregar minhas baterias. Já à noite uso as próprias baterias para sustentar a casa, o estabelecimento ou a indústria.

Como as empresas de distribuição e transmissão de energia encaram o crescimento da GD?

No começo houve uma resistência, até pelo desconhecimento das empresas, que se sentiram ameaçadas com medo de perder receita, mas agora estão compreendendo que isso faz parte do negócio. Muitas delas inclusive já estão abrindo outras empresas para atuar nesse segmento. As empresas perceberam que o mercado vai mudar, então têm que se preparar. Claro que ainda existe um pouco de competição, o que é natural, até porque elas que dizem quem pode se conectar ou não. E tem o custo disso. Mas não tem sentido atuarem na mesma região que tem concessão – tema em que a ABGD tem trabalhado forte, para deixar esse mercado mais isonômico, em que todos sejam remunerados. Temos trabalhado na tarifa binômia, que remunera a infraestrutura das distribuidoras, mas de maneira igualitária, de modo que não se destrua os negócios do prosumidor, nem se avilte os preços da rede de distribuição que se está usando para usar geração distribuída. Algo equilibrado. As distribuidoras do mundo todo estão percebendo que o negócio delas vai mudar, assim como mudou o negócio da IBM alguns anos atrás. Começou com máquina de escrever, depois surgiram os computadores centralizados, depois vieram os computadores pessoais. Nascia a computação distribuída.

A consolidação da GD no país fomenta o desenvolvimento de players de tecnologias, equipamentos e serviços. Qual é o potencial dessa cadeia?

A energia solar fotovoltaica começou no Brasil em 1979, quando surgiu a primeira indústria do setor no país. A ABGD tem trabalhado forte em capacitação e treinamento. Em convênio com Senai, criamos novos cursos, como de pós-graduação em energia solar fotovoltaica. E criamos com o Senai a primeira certificação de instalador fotovoltaico. Quem vai instalar tem que ser certificado, de forma a garantir qualidade e segurança ao sistemas solares fotovoltaicos. A IRENA (Agência Internacional de Energia Renovável), que é mundialmente respeitada, afirma que a área de renováveis é a que mais cria emprego no mundo. Superou até petróleo e gás. E dentro das renováveis, a solar fotovoltaica é a que mais cria empregos, sendo que a área de instalação gera 58% dos empregos.

As novas tecnologias impactarão muito o futuro da Geração Distribuída?

A GD é algo inexorável. Não tem mais como voltar atrás no Brasil. Vai evoluir ao ponto de cada vez mais nós, consumidores, produzirmos nossa própria energia. Segundo um estudo da Bloomberg, em 2040 a matriz elétrica terá 34% de energia proveniente da fonte solar fotovoltaica e 32% da hidráulica. Hoje, menos de 1% da nossa matriz é solar fotovoltaica. Com as novas usinas grandes que entraram em operação, esse patamar foi para 1,5%. É possível ver o crescimento gigantesco que teremos. E desses 34%, que serão de origem solar fotovoltaica, 75% serão de geração distribuída. E a tendência é que os preços continuem caindo, como aconteceu com celulares, computadores. Tem acontecido a mesma coisa com a energia solar fotovoltaica. E o desenvolvimento das tecnologias vai impactar nesse processo. Exemplo disso serão os elementos de construção, como vidro, telha, janela, que também podem gerar energia solar fotovoltaica. O armazenamento é outro desafio tecnológico importante. Hoje já temos baterias, mas pena que não são tão eficientes como gostaríamos, nem tão baratas como necessitaríamos. Mas daria para colocar bateria de lítio em casa sem depender da distribuidora. O que se prevê é que daqui a cerca de dois ou três anos isso seja tão barato e eficiente que o consumidor ficará pensando se vai continuar pagando a conta de luz ou se vai produzir a própria energia.

Confira a 31ª edição completa da Revista Full Energy.