Homenagem póstuma a uma das maiores personalidades do setor elétrico brasileiro

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Júlia Dias Leite, neta de Antonio Dias Leite, recebendo das mãos do Superintendente da EPE, Giovani Machado, a placa de homenagem póstuma a seu avo, concedida pelo Grupo Mídia durante a solenidade de premiação do 100 Mais Influentes da Energia 2018

Antônio Dias Leite Junior nasceu em uma época em que ter energia elétrica em casa era luxo. O filho do empresário português Antônio Dias Leite e de Georgetta Lahmeyer chegou ao mundo em 1920.

Leite Junior, nascido e criado no bairro de Botafogo, zona sul do Rio de Janeiro, ingressou na Faculdade de Engenharia da Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) aos 17 anos de idade. Assim que se formou, foi para os Estados Unidos, onde trabalhou durante 3 anos como engenheiro mecânico.

Em 1943, Leite Junior retornou ao Rio de Janeiro após o Brasil entrar na Segunda Guerra Mundial. Serviu ao exército como tradutor de faturas e manuais de equipamentos da Força Expedicionária Brasileira.

No ano seguinte, foi nomeado assessor da primeira Comissão de Planejamento Econômico do Brasil, vinculada ao Conselho de Segurança Nacional. Iniciou então sua trajetória como economista, trabalhando pela primeira vez ao lado do professor Jorge Kafuri.

A história de Antônio Dias Leite Junior não pode ser contada sem lembrar de sua esposa, com quem passou 70 anos de sua vida. O casamento com Manira Alcure aconteceu em 1945 e rendeu 6 filhos ao casal. Em 1946, Leite Junior começou a dar aulas no magistério superior como professor assistente de Jorge Kafuri na cadeira de Estatística, Economia Política e Finanças da Escola Nacional de Engenharia da Universidade do Brasil, atual UFRJ.

Carreira Acadêmica
Após iniciar as aulas na UFRJ, Leite Junior se aprofundou na carreira acadêmica. No ano de 1948 escreveu na Revista Brasileira de Economia, da FGV, o artigo: “Renda Nacional”, elaborado a partir de dados econômicos apurados em pesquisas realizadas pelo país. Nesse mesmo ano, foi contratado pela Faculdade Nacional de Ciências Econômicas, da Universidade do Brasil, e foi nomeado professor titular de Estatística, Economia Política e Finanças, com a tese “Renda Nacional, um Estudo Teórico e Explicativo do Conceito”.

Após 3 anos, Leite Junior publicou o estudo “A Estimativa da Renda Nacional do Brasil, 1947-1949”, na Revista Brasileira de Economia. O trabalho, desenvolvido a pedido de Eugênio Gudin, marcou o início da produção de estatísticas sistemáticas com análises quantitativas sobre a evolução da economia brasileira.

No ano seguinte, com apenas 32 anos, foi aprovado no concurso para professor catedrático
na Faculdade de Ciências Econômicas, da Universidade do Brasil, com a tese “Bases para o Estudo da Estrutura Técnica das Organizações de Produção”.

Em 1955, assumiu o cargo de diretor da Ecotec tornando-se vice-presidente da empresa. Na Ecotec, trabalhou com projetos de consultoria para Furnas Centrais Elétricas e de reestruturação da Companhia Vale do Rio Doce, além de estudos diversos na área de energia elétrica. No início da década de 1960, a paixão por energia elétrica aflorou. Leite Junior viajou para os Estados Unidos para um período de oito meses, onde conheceu o modelo de operação interligada desenvolvido pela Autoridade do Vale do Tennessee, exatamente o mesmo que o Brasil buscava adotar no Rio São Francisco.

Paixão por energia
No ano de 1967 foi nomeado presidente da Companhia Vale do Rio Doce, iniciando o processo de modernização e expansão da empresa, ao incentivar o setor de exportações da mineradora, diversificar a produção, iniciar negociações diretas com as indústrias consumidoras e priorizar a construção de usinas de pelotização.

Sua gestão também foi responsável por garantir a participação brasileira na exploração das reservas de Carajás, no Pará. Após dois anos no cargo, em 1969, foi nomeado ministro de Minas e Energia. Durante os 5 anos em que esteve à frente do Ministério, Leite Junior atuou no apoio às pesquisas mineral e nuclear, além de dirigir diversos estudos sobre o potencial hidrelétrico brasileiro.

Durante o tempo que ocupou o cargo, foi responsável por fundar a Companhia de Pesquisas de Recursos Minerais (CPRM). Leite Junior foi responsável por startar um amplo mapeamento geológico do país, em especial na Amazônia, desenvolvido de 1970 a 1974. O projeto possibilitou que toda a Bacia Amazônica fosse conhecida com riqueza de detalhes.

Durante seu período na pasta, apoiou a constituição de quadros de alto nível no Cenpes (Centro de Pesquisas da Petrobras), fundou o Centro de Pesquisas do Setor Elétrico (Cepel); o Centro de Tecnologia Mineral (Cetem) e o Centro de Segurança de Medicina do Trabalho (Centrecon).

Apesar dos diversos feitos citados, a maior atribuição da carreira de Leite Junior frente ao Ministério de Minas e Energia foi a assinatura do Tratado de Itaipu, apresentado ao Congresso Nacional em 1973. A atuação efetiva do Ministro durante as negociações foi fundamental para a consolidação da binacional. Antes de deixar a pasta, em 1974, criou ainda a Companhia Brasileira de Tecnologia Nuclear e se dedicou à revisão do Código Nacional de Águas.

VENCEDOR DO PRÊMIO JABUTI, COM O LIVRO “A ENERGIA DO BRASIL”, LEITE JUNIOR LANÇOU OUTRAS CINCO OBRAS, ALÉM DE REVISTAS SOBRE ENGENHARIA, ECONOMIA E ENERGIA.

Legado
Após 1974, Leite Junior retornou às atividades na UFRJ, onde passou a exercer a função administrativa de assessor do reitor Hélio Fraga. Em 1978, assumiu a presidência da Companhia Internacional de Seguros, cargo que ocupou por 2 anos. No início da década de 1980 iniciou sua gestão como presidente da Fundação Universitária José Bonifácio, cargo que ocupou até 1983.

Os esforços pela preservação do Meio Ambiente foram reconhecidos com a condecoração da Medalha Navarro, no ano de 1981. Nessa mesma década, Leite Junior foi nomeado diretor da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da UFRJ, e publicou o livro Caminhões da Reconstrução. Após 40 anos de carreira, o ex-ministro se aposentou da universidade. A relevância e a abrangência da produção científica e dos méritos como docente lhe renderam o título de professor emérito da instituição.

Apesar de se aposentar da UFRJ, Leite Junior jamais deixou de lado a paixão pela ciência. Em 1988 organizou na FEA/UFRJ um seminário internacional de economia em comemoração ao cinquentenário da faculdade, um encontro histórico que reuniu especialistas de todas as linhas de pensamento que atuaram em diferentes períodos político-econômicos no país. Em 1990, Leite Junior assumiu a presidência do Conselho de Meio Ambiente da Eletrobras e, em 1994, foi contratado como consultor econômico da Federação Nacional dos Seguros Privados (Fenaseg).

Após tantas décadas de dedicação ao desenvolvimento brasileiro, o engenheiro, economista e ex-ministro dedicou sua experiência como consultor no setor elétrico e como autor de livros sobre tudo que vivenciara até então. Vencedor do Prêmio Jabuti, com o livro “A Energia do Brasil”, Leite Junior lançou outras cinco obras, além de revistas sobre engenharia, economia e energia. Faleceu em 2017, aos 97 anos, entrando para a história do Brasil como uma das figuras mais influentes na economia e no setor elétrico de todos os tempos.

Esta matéria foi veiculada na 34º edição da revista Full Energy.