Maturidade tecnológica aumentará competitividade do etanol 2G no Brasil

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Integrar a produção enzimática ao processo de fabricação do etanol de segunda geração (2G) em usinas sucroenergéticas representa atualmente uma das promessas para que o custo deste biocombustível seja mais competitivo no Brasil.

Para o consultor de Emissões e Tecnologia da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Alfred Szwarc, a implementação de tecnologias para a obtenção de enzimas nas próprias unidades industriais dará mais autonomia aos produtores de 2G, reduzindo gastos com este importante implemento orgânico, responsável por acelerar a conversão de materiais celulósicos em açucares, posteriormente transformados em biocombustível.

Segundo o consultor da Unica, tecnologias para a produção do 2G por meio da “hidrólise enzimática” foram criadas e aprimoradas na última década com o auxílio dos principais fornecedores mundiais desta substância. “Nesse esforço, foi possível reduzir o seu custo e melhorar a sua efetividade industrial. Contudo, percebe-se agora que algumas empresas do setor de biocombustíveis optaram pelo desenvolvimento de plataformas de conversão de materiais celulósicos (biomassa da cana) utilizando um caminho alternativo, produzindo suas próprias enzimas”, avalia Szwarc.

Em março deste ano, um dos principais desenvolvedores de tecnologia 2G, a Clariant, multinacional da indústria química e dona de um processo biotecnológico chamado Sunliquid, comprovou que a produção própria de enzimas é viável. A empresa realizou testes em sua planta piloto localizada em Straubing, município alemão da Baviera, convertendo 40 contêineres de bagaço de cana do Brasil em etanol celulósico. Segundo a companhia, a experiência rendeu até 300 litros do biocombustível por tonelada de matéria-prima utilizada. Embora não tenha divulgado valores, a empresa afirma que o custo total por litro do etanol obtido foi competitivo em relação ao preço atual do combustível de primeira geração (1G) no Brasil.

“A fabricação de enzimas específicas para resíduos de cana-de-açúcar na própria planta, de forma integrada ao processo de fabricação do celulósico, traz vantagens competitivas e permite que a nossa tecnologia Sunliquid ofereça alta produtividade “, enfatiza o diretor de Biocombustíveis & Derivados da Clariant, Markus Rarbach. Parte do 2G fabricado na Alemanha foi enviado ao Brasil para aplicação comercial. A Clariant informa que mais detalhes desta utilização serão anunciados em breve.

Além da biomassa sucroenergética, a multinacional também realizou testes com outros resíduos agrícolas em sua fábrica alemã. Mirando também os mercados europeu e americano de biocombustível, fez experiências como palha de cereal e de milho. Em dezembro do ano passado, a tecnologia Sunliquid foi vencedora da 5ª edição do Prêmio Inovação para Clima e Meio Ambiente do Ministério Federal de Meio Ambiente, Preservação da Natureza, Construção e Segurança Nuclear da Alemanha. Na oportunidade, o governo daquele país, com apoio da Federação das Indústrias Alemãs (BDI), concedeu à Clariant o Prêmio de Inovação para Clima e Meio Ambiente (IKU). A marca suíça superou 14 concorrentes na mesma categoria.

Em 2015, a Clariant anunciou a inauguração do seu novo centro de Pesquisa & Desenvolvimento em Planegg, cidade próxima a Munique, demonstrando o forte compromisso da empresa com o desenvolvimento de processos e produtos sustentáveis de origem biológica no segmento de biocombustíveis e químicos.

2G no Brasil

Atualmente, o País possui duas usinas de fabricação exclusiva do etanol celulósico. Construídas em 2014 e 2015 nas cidades de São Miguel dos Campos (AL) e Piracicaba (SP) pelo Grupo Granbio e Raízen, respectivamente, as unidades têm capacidade de produzir, juntas, até 122 milhões de litros de 2G por ano. Outro projeto importante vem da parceria entre a usina São Manoel e o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), que há dois anos mantém uma unidade experimental de produção do biocombustível no interior de São Paulo. Outras instituições de pesquisas como a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e o Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTEB) também desenvolvem projetos com biocombustíveis.

Segundo o estudo “Second Genaration Biofuels Markets: State of Play, Trade and Developing Country Perspectives”, documento divulgado em fevereiro deste ano pela Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), e que teve contribuições da UNICA, o País tem potencial para produzir até 10 bilhões de litros de etanol 2G até 2025. Entretanto, isso só ocorrerá mediante à expansão na moagem de cana, modernização e integração das produções de etanol 1G e 2G nas usinas existentes, além da construção anual de 10 unidades exclusivamente voltadas ao biocombustível celulósico a partir de 2020.

Ranking

Em termos de capacidade instalada, o mercado mundial de etanol celulósico é liderado pelos Estados Unidos, que possui 34% de participação (490,37 milhões de litros), seguido pela China, com 24% (340,19 milhões de litros);  Canadá, com 21% (303,45 milhões de litros), Brasil, com 12% (177,34 milhões de litros) e União Europeia, que detém 9% (130,83 milhões de litros). No total, segundo apurou a UNCTAD para o ano de 2015, somaram-se mais de 1,4 bilhão de litros.