Mercado de Certificados de Energia Renovável passa da marca de 1 milhão em 2018

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Mesmo em um momento de crise econômica, a sustentabilidade é uma pauta que ganha bastante destaque nos mais diversos setores, inclusive no energético. Para empresas e usinas geradoras de energia, investir nesta área auxilia no fortalecimento da marca e aprimora o relacionamento do negócio com a sociedade.

A atenção cada vez maior das empresas com as práticas sustentáveis tem motivado o crescimento da demanda por certificações de energia renovável. Um exemplo é o sistema global chamado I-REC Service, que proporciona ao mercado a possibilidade de consumo de energia renovável.

O I-REC Service é um sistema global de rastreamento de atributos ambientais de energia projetado para facilitar a contabilidade confiável de carbono, para Escopo 2, compatível com vários padrões internacionais de contabilidade de carbono. I-REC permite a todos os usuários de eletricidade fazer uma escolha consciente e baseada em evidências para a energia renovável, em qualquer país do mundo.

Empresas que desejam emitir as I-RECs, equivalentes a 1MWh de energia gerada, precisam aderir ao Código I-REC. Para tanto, a organização passa por uma auditoria documental sobre sua legalidade. Se tudo estiver correto, efetua o pagamento das taxas do Programa. Ao ser registrada na Plataforma I-REC, a empresa passa a ter permissão para emitir e transferir I-RECs.

No Brasil, há 48 usinas registradas na plataforma mundial e que estão aptas a emitir certifi cados de energia renovável. Destas, 36 são eólicas, sete são hídricas, uma de PCH, duas de biomassa e duas solares. Entre os critérios para ser um empreendimento aceito está ser um gerador de energia renovável, injetar energia no sistema grid e se não há duplo beneficiário, por exemplo.

A entidade internacional que controla o sistema é o I-REC Standard e tem o Instituto Totum como emissor no Brasil (selo REC Brazil).

“Nós somos os responsáveis por registrar as usinas de energia que queiram diferenciar seus empreendimentos no quesito sustentabilidade e por emitir certificados”, conta a diretora do Instituto, Celina Almeida.

Existe diferença entre a certificação e o contrato de compra e venda de energia. Afinal, o contrato é baseado em uma energia futura e, por isso, não oferece 100% de garantia que é de fonte renovável. Já o certificado é baseado na energia passada, ou seja, já gerada.

“As usinas têm o interesse de se certificarem para oferecer uma energia certificada para o mercado. E o interesse do comprador é por usar fontes renováveis em sua produção”, explica.

Selo REC Brazil
O selo REC Brazil é a consolidação do Programa de Certificação de Energia Renovável no Brasil. É emitido pelo Instituto Totum numa parceria com a Associação Brasileira de Geração de Energia Limpa (Abragel), e a Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica), com apoio da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) e a Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia (Abraceel).

O REC Brazil proporciona a garantia ao cliente, pois certifica que a usina geradora de energia atende critérios de sustentabilidade nos aspectos sociais, ambientais e em relação à comunidade. Mas, para isso, é preciso que o empreendimento já esteja registrado na plataforma ou que solicite esse registro em paralelo.

“Além disso, para a emissão do certificado, é realizada uma auditoria adicional in loco que averigua uma série de aspectos de sustentabilidade. Por exemplo, se registrou acidente de trabalho nos últimos anos, se tem todas as reservas legais atendidas, se adota programas voltados à comunidade e o quanto essa comunidade é afetada em relação à construção e à atividade da usina”, explica Celina.

Segundo o Instituto Totum, o Programa de Certificação de Energia Renovável no Brasil mantém trajetória de crescimento no país, chegando à marca de 1,3 milhão de certificados comercializados em 2018, o que já é um valor cinco vezes superior ao comercializado em 2017. “É um número bastante expressivo, já que não temos nada compulsório e dado que o programa é relativamente novo”, sublinha Celina. Em 2019, a estimativa é chegar a 3 milhões de certificados.

A demanda por RECs, que é maior a cada dia, sinaliza que as empresas estão preferindo
consumir energia renovável e, ao mesmo tempo, mostra o compromisso com a mudança de comportamento energético. Em outubro, por exemplo, a Vivo, marca da Telefônica no Brasil, informou que, a partir de novembro, a empresa passa a registrar 100% de seu consumo de energia elétrica proveniente de fontes renováveis, com a obtenção de energia renovável certificada.

Quando uma organização adquire RECs, é possível especificar alguns critérios, como o tipo de fonte e o ano de geração. “Então, se a empresa está fazendo um relatório de sustentabilidade referente a 2017, é possível adquirir a energia gerada em 2017”, esclarece Celina.

O custo da aquisição do REC também varia de acordo com diversos aspectos e as negociações são realizadas diretamente entre comprador e usinas. “Tem alguns casos de empresas grandes que fizeram contrato para comprar mensalmente. Nesse caso, é mais fácil de negociar, porque são contratos maiores.”

Programa mundial
Desde 2013, quando passou a contar com um sistema estruturado de registro, emissão e transação de RECs, o mercado brasileiro acumula sucessivos recordes de crescimento. A partir de 2016, o Brasil passou a integrar o grupo de países que seguem o padrão internacional I-REC. “O I-REC é uma plataforma internacional de transações que permite aos consumidores adquirirem o certificado de uma energia de fonte renovável rastreada para compensar as emissões pelo consumo de energia de origem fóssil ou de difícil comprovação de origem. Com isso, é possível alcançar metas de aumento de energia renovável para grandes empresas, sem a necessidade de investimento em geração de energia própria”, afirma o diretor-presidente do Instituto Totum, Fernando Lopes.

Outra iniciativa que tem contribuído para o crescimento da emissão de RECs e de usinas certificadas é o Programa mundial RE 100. O Instituto Totum esteve presente em março de 2018 na conferência REC Market Meeting, em Amsterdã, e em outubro de 2018 na Renewable Energy Markets, em Houston, como palestrante. Ambos eventos contaram com a participação de mais de 300 pessoas de empresas de energia, grandes consumidores, agências governamentais, consultores e ONGs, e os eventos foram focados na discussão sobre o aumento global da demanda de energia renovável, com destaque para essa iniciativa do RE 100, que congrega as empresas comprometidas com consumo de 100% de energia renovável. Esse grupo RE 100 já conta com mais de 180 empresas, representando uma demanda de mais de 170 TWh.

Certificados de Energia Renovável: como funcionam
No Brasil, a energia que chega para nosso consumo vem do Sistema Interligado Nacional que, por sua vez, recebe produção de todas as fontes de energia: hidrelétricas, eólicas, biomassa, térmica etc. O que algumas pessoas não sabem é que, ainda assim, existe um jeito de escolher a energia que você irá consumir, por meio de um sistema de certificação da energia. Parece complicado? Bom, então vamos explicar como funciona o Programa Brasileiro de Certificação de Energia Renovável.

A estrutura brasileira de geração, transmissão e distribuição de energia torna impossível rastrear os elétrons de uma usina de geração de energia até seu ponto de consumo. A energia elétrica de um determinado parque eólico, por exemplo, é injetada no sistema elétrico e, portanto, se mistura com outros elétrons de outras fontes de energia (renováveis ou não). Na etapa seguinte, sua distribuidora local retira essa energia do Sistema elétrico e leva até o ponto de consumo. Nem você e nem sua distribuidora local de energia podem, portanto, afirmar de onde os elétrons são originados.

Como então é possível garantir que um consumidor consuma energias renováveis? Simples, por um sistema de contabilização que controla o equilíbrio entre entrada e saída e certificados. Quando uma geradora é certificada, a energia gerada é acompanhada da geração dos Certificados de Energia Renovável (RECs) correspondentes ao montante produzido. Um REC é a prova de que 1 MWh (um megawatt hora) foi injetado no sistema a partir de uma fonte de geração de energia renovável.

Quando um consumidor adquire um REC, ele se apropria, por meio de um certificado, daquela energia que foi injetada no sistema e aquele REC não será usado por mais ninguém e aquela quantidade de energia sai da conta do sistema.

Para que uma determinada geradora possa emitir RECs, ela precisa passar por um processo de certificação. Uma vez certificada, a usina passa a emitir RECs para cada 1 MWh de energia injetada no sistema elétrico. E estes RECs ficam disponíveis para compra por empresas que queiram certificar que seu consumo de energia é renovável. No site do Programa www.recbrazil.com.br, é possível ter informações detalhadas sobre todo o processo e como é feita a compra e venda, em ambiente certificado, de acordo com as legislações vigentes que normatizam este sistema.

Esta matéria foi veiculada na 34º edição da revista Full Energy.