quarta-feira, julho 17, 2019
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Mudanças climáticas podem afetar geração de energia renovável

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Todas as fontes renováveis de energia estarão, em graus variáveis, vulneráveis à mudança do clima. Em cenários de clima extremo, com aumentos de temperatura acima de 4°C neste século, a energia hidrelétrica no Brasil sofrerá pela menor vazão dos rios, assim como eólica, solar e biomassa. O país pode ingressar em um ciclo vicioso, recorrendo a fontes energéticas fósseis que alimentam o problema. Esta visão é de Roberto Schaeffer, da Coppe/UFRJ, especialista em energia e um dos autores do estudo “Riscos de Mudanças Climáticas no Brasil e Limites à Adaptação”, divulgado ontem.

Coordenado pelos climatologistas Carlos Nobre e José Marengo e realizado com apoio da Embaixada do Reino Unido, o estudo analisou impactos em saúde, agricultura, biodiversidade e energia no Brasil em cenários de aumento de temperatura de mais de 4°C.

Neste quadro, o déficit no atendimento da demanda elétrica no Brasil se tornará praticamente inevitável. O sistema também será mais pressionado pela demanda, com maior necessidade do uso de ar­-condicionado, por exemplo.

O Brasil, que produz 80% de sua energia elétrica com base na hidroeletricidade, fica muito vulnerável à mudança do clima, diz Schaeffer. “Cenários de menos de 4°C já causam muito impacto”, reforça. Estudos contratados pela extinta Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) indicam que a mudança do clima e a mudança no regime de chuvas podem fazer com que s bacias brasileiras tenham vazão de 40% a 60% mais baixas, com perda de capacidade de geração de energia de 25%.

“O planejamento energético parte do pressuposto que o clima é estacionário, o que não é verdade”, disse. “Qualquer projeto de hidrelétrica no mundo que tenha dinheiro do Banco Mundial tem de considerar cenários de mudança climática. O banco quer saber se vai emprestar para uma obra que talvez não tenha como retornar o empréstimo.”

No caso de temperaturas extremas há impactos no padrão dos ventos e a probabilidade de mais nuvens afeta a geração de energia solar. A produção de cana também é muito vulnerável e, por consequência, a eletricidade gerada por biomassa.

Schaeffer teme que esse quadro esconda uma armadilha. “Se o Brasil recorrer mais a fontes renováveis pode ficar mais vulnerável e, para se proteger, voltar­-se mais às fontes fósseis”, disse. “O setor elétrico terá que mudar sua cara, depender menos de hidrelétrica e, perversamente, talvez optar pelas térmicas a gás. Há uma tendência do setor energético de aumentar muito suas emissões para lidar com o problema”, disse.

O estudo revelou os principais riscos para o Brasil no caso de a elevação da temperatura superar os 4°C: queda de produtividade entre 20% e 81% em culturas como arroz, feijão e soja; possibilidade de o mosquito Aedes aegypti encontrar condições ainda mais favoráveis para se disseminar e aumento da extinção em 25%. “Há limites para a adaptação à mudança do clima”, disse Carlos Nobre. “A principal mensagem deste estudo é tomarmos medidas já para evitar chegar a esta situação.”