Revista Full Energy traz Perfil com Zilmar José de Souza, gerente de bioeletricidade da Unica

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Desenvolver uma energia limpa, sustentável e que possa ser um grande incremento à matriz energética nacional. Este é o foco do trabalho de Zilmar José de Souza a favor da bioeletricidade no país. Especialista em economia e engenharia de produção, nos últimos 30 anos tem contribuído para o desenvolvimento do setor energético brasileiro. Souza acompanhou de perto o surgimento da cogeração de energia no país, na década de 1980. Desde então tem trabalhado em prol da bioeletricidade, uma energia sustentável, limpa e que pode assumir papel de maior destaque no setor.

Atual gerente de bioeletricidade da Unica (União da Indústria de Cana-de-açúcar), Souza acredita no potencial do setor sucroenergético para a geração de energia no país. Essa modalidade começou a ser desenvolvida em 1987, quando três usinas iniciaram o processo de exportação de energia elétrica para a rede na região Centro-Sul do país. “Naquela época, era tudo novidade para o setor sucroenergético e para a própria concessionária de distribuição de energia”, completa.

Natural de Ribeirão Preto, Souza é pós-doutor em Economia pela FGV/SP e doutor em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de São Carlos. O executivo começou sua trajetória no setor elétrico em 1987, na CPFL de Ribeirão Preto.

Confira a seguir o Perfil da revista Full Energy com Zilmar José de Souza, entusiasta da bioeletricidade no Brasil.

Entraves 
A geração excedente de energia para a rede se desenvolveu muito nos últimos 30 anos, ressalta Souza. “Em 2017, das 367 usinas sucroenergéticas brasileiras, 209, o que corresponde a 57% do total, já exportavam energia elétrica excedente para a rede. Houve uma evolução muito grande de exportação de energia no país”, completa. Apesar disso, 43% das usinas ainda não exportam, o que pode significar uma necessidade de reformulação do parque existente para que a biomassa excedente possa tornar-se bioeletricidade. Apesar do otimismo do desenvolvimento do setor, Souza cita que existem entraves que têm dificultado o progresso.

“É necessário que exista uma política setorial estimulante, a longo prazo, com diretrizes claras de continuidade”, afirma.

Segundo ele, nos últimos leilões, que representam a principal porta de entrada para projetos de energia eólica, solar, bioeletricidade e biomassa, têm havido uma inconstância na contratação em ambiente regulado. Souza cita que no leilão do dia 31 de agosto, apenas 2 projetos foram vendidos, em um total de 25 cadastrados. “Esses projetos vão significar um incremento de 28,5 MW, de um total de 1.040 que havíamos cadastrado. Esse cenário é ruim para a biomassa. É preciso criar um ambiente positivo para contratação dessa fonte, tanto para contratação no mercado regulado quanto no mercado livre”, completa. Os projetos foram contratados para o ano de 2024.

Leilões regionalizados
Uma das medidas que pode viabilizar a consolidação da biomassa no setor energético brasileiro são os leilões regionalizados, afirma Souza. Na visão dele, uma alternativa interessante para o setor estaria em traçar uma política setorial com leilões específicos para biomassa, criando sinergia também com o RenovaBio. “Este programa pretende quase dobrar a produção de etanol até o fim da década de 2030, então vai haver uma expansão da exploração dos canaviais e, por consequência, uma crescente demanda por energia”, explica Souza.

O segundo passo seria criar leilões específicos para bioeletricidade, através da sinergia construída com a produção de etanol.

“Os leilões regionais podem ser uma ferramenta para estimular esse potencial da biomassa, transformada em bioeletricidade em locais específicos”, diz Souza.

De acordo com dados da Aneel, a matriz energética brasileira tem 167 mil MW. Desse total, cerca de 15 mil têm como fonte a biomassa, o que representa cerca de 9% da matriz energética do país em potência instalada. A fonte ocupa a terceira posição das mais utilizadas, ficando atrás da hídrica e da fóssil.

Na visão do executivo, é preciso criar uma série de medidas que possam viabilizar o desenvolvimento da energia através de biomassa no Brasil. Souza destaca a importância do ano de 2019, lembrando que é preciso criar um marco regulatório crível e concatenado com o RenovaBio. Ele ressalta ainda a necessidade de criar espaços para a bioeletricidade nos leilões. “Precisamos ter uma energia limpa, renovável, sustentável. Para isso, temos que trazer o tapete vermelho para investidores que estão interessados em uma energia tão importante e estratégica para o nosso país”

Energia dos canaviais
De janeiro a agosto de 2018, a biomassa gerou para a rede elétrica 17.356 GW/hora, segundo relatório divulgado pela CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica). No mês de julho, por exemplo, a fonte chegou a representar 8% da energia da matriz energética brasileira devido à safra de cana. “Você observa o quão relevante é para a sociedade essa geração em sustentar quase 8% do consumo do Brasil inteiro, um país continental, num único mês”, ressalta.

A bioeletricidade segue crescendo nos últimos anos. A fonte biomassa advinda do setor sucroenergético, no ano de 2017, foi responsável pela exportação de 21,4 TW/hora. Em 2016 esse número foi de 21,2 TW/hora; em 2015, de 20,4 TW/hora; e em 2014, de 19,6 TW/hora. “Houve um salto muito grande de 2013 para 2014, já que em 2013 era de 16 TW/hora”, diz.

A bioeletricidade é também uma alternativa frente à crise hídrica que atingiu estados brasileiros nos últimos anos, uma vez que a água é a maior fonte de energia do país. Além disso, observa que esta fonte de energia entra em ação, principalmente, durante os períodos mais secos, conforme diz Souza.

“De janeiro a agosto desse ano, essa fonte já ajudou a poupar 12% da água dos reservatórios do Sudeste do país”.

Ressalta ainda que, ao vender essa energia no mercado livre, existe a possibilidade de se conseguir um preço mais interessante frente à escassez hídrica, já que nos leilões acaba-se cedendo a preços pré-definidos.

O especialista da Unica cita ainda algumas dificuldades de comercializar a bioeletricidade no mercado de curto prazo. “Já faz quatro anos em que nós temos dificuldade em receber os créditos da liquidação financeira promovida mensalmente pela CCEE. Há mais de três meses toda a geração excedente vai para o mercado de curto prazo e a gente recebe 0% de volta”, afirma. “É um mercado que está travado.”

Mercado livre
No primeiro semestre desse ano, a Raízen fechou uma joint-venture para entrar com força no mercado livre de energia. A atuação neste segmento é uma tendência do setor elétrico.

“Mais de 60% do que nós produzimos e vendemos acaba indo para o mercado livre. Então a venda no mercado livre já faz parte do DNA das usinas. Isso já é muito usual no setor sucroenergético”, diz Souza.

Ele define ainda grandes expectativas nesse setor para o futuro. “A partir do momento em que o mercado livre conseguir viabilizar investimento, com contratos de longo prazo e financiamentos, certamente vai haver um boom em projetos, como de biomassa, energia eólica e solar.” A venda no mercado livre representa hoje 30% do consumo nacional, explica o especialista.

Esta matéria foi publicada na 33ª edição da revista Full Energy.