sábado, Março 23, 2019
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Ronaldo Koloszuk, da Absolar, analisa o ano de 2018 para a energia solar e fala sobre as expectativas para 2019

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O crescimento da energia solar fotovoltaica é um fenômeno entre os países mais desenvolvidos do mundo. São diversos os motivos que elevam a fonte a um patamar de protagonismo na matriz energética mundial. A “energia do sol” apresenta os três aspectos necessários para se enquadrar como uma fonte sustentável: é econômica, ecológica e proporciona desenvolvimento social. Não à toa as duas maiores potências econômicas do mundo têm investido nesse segmento. China e Estados Unidos são, respectivamente, os dois países com maior capacidade instalada.

O Brasil, apesar de não figurar entre os dez maiores geradores de energia solar fotovoltaica do mundo, tem um dos territórios com maior potencial para a fonte. A conta é simples: muita incidência solar durante quase todos os dias do ano, somada a uma grande área territorial. Se os recursos naturais privilegiam o Brasil, os entraves regulatórios e o investimento pequeno impedem o país de se tornar um dos grandes desse segmento. Por enquanto.

O potencial solar do Brasil é, de fato, pouco explorado atualmente, mas o desenvolvimento segue a passos largos. O futuro do país nesse setor é promissor. Segundo o empresário Ronaldo Koloszuk, presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), a energia solar cresceu 313% no ano de 2015, 320% em 2016 e 160% em 2017, que foram anos de recessão econômica do país. “Mesmo durante esse período de instabilidade, fomos um nadador contra a correnteza. Agora, a gente espera nadar a favor da corrente”, diz Koloszuk. Confira a entrevista que ele concedeu para a Revista Full Energy.

FULL ENERGY: Em maio desse ano o senhor assumiu a presidência do Conselho de Administração da Absolar para o biênio 2018-2020. Quais são seus objetivos no cargo?

Ronaldo Koloszuk: O principal desafio da Absolar é aumentar a participação da energia solar fotovoltaica na matriz elétrica brasileira, gerando oportunidades para quem quer trabalhar e investir no setor. Como temos feito isso do ponto de vista interno? Uma associação é feita de gente, de voluntários. Temos o corpo técnico, profissional, que atua pra gente, mas você tem inúmeros voluntários, assim que funciona a dinâmica de uma associação. Começamos nossa gestão com uma grande oportunidade de descentralização da entidade. Criamos, num primeiro momento, três vice-presidências: de geração distribuída, de geração centralizada e de cadeia produtiva. Com isso, ampliamos os espaços de trabalho.

FULL: Como analisa o ano de 2018 para a energia solar no Brasil e para a Absolar?

Koloszuk: A Absolar fez uma reestruturação interna, criamos um novo alicerce. Começamos o ano com cerca de 200 associados e devemos terminar com mais de 300. Estamos em um crescimento muito acelerado e precisávamos reestruturar a base da associação. E fizemos isso nesses primeiros seis meses de gestão. Do ponto de vista de mercado, foi um ano positivo para a geração distribuída. Houve uma aceitação muito positiva dos empresários. A grande maioria subestimou as previsões de venda, e acabou vendendo mais do que se esperava. As empresas estão com um volume muito maior de negócios, estão contratando mais, gerando mais empregos, investindo. Na geração centralizada, houve um acontecimento importante: no último leilão de energia, a nossa fonte foi a segunda mais barata para ser contratada, rompendo aquele estigma de que a energia solar fotovoltaica é uma energia cara.

FULL: Quais as expectativas e projeções para o desenvolvimento do setor solar para o ano de 2019 no Brasil?

Koloszuk: As expectativas são muito otimistas, porque em geração distribuída faltava conhecimento, as pessoas simplesmente não conheciam a energia solar fotovoltaica. Mas hoje tudo isso está sendo muito difundido. Os preços caíram muito, ao mesmo tempo em que a conta de energia subiu. O retorno do investimento ficou muito atrativo. Hoje o retorno de investimento na geração distribuída varia de três a sete anos, para equipamentos que têm garantia de fábrica, que podem durar até 35 anos. Em 2015 houve uma queda de 3,8% no PIB, enquanto a GD cresceu 313%. Em 2016, a queda foi de 3,6% e a energia solar cresceu 320%. Em 2017, o PIB cresceu 1%, e a energia solar, 160%. Mesmo durante esse período de instabilidade, nós fomos um nadador contra a correnteza. Agora, a gente espera nadar a favor da corrente.

FULL: Quais são as demandas da Absolar junto ao novo poder executivo?

Koloszuk: Estamos construindo pontes com o novo Governo. Entendemos que até agora nunca houve uma política de estado para a energia solar fotovoltaica no Brasil. Nunca houve uma política de estado como China, Estados Unidos ou Alemanha fizeram, de olhar para a energia solar fotovoltaica como uma força do futuro, uma força competitiva. O que esperamos é que exista uma visão de estado por parte do próximo Governo para essa fonte. O mundo demostra que essa vai ser a fonte dominante em poucos anos. Segundo estudos, em 2050, a fonte solar fotovoltaica vai representar mais de 40% da matriz mundial.

FULL: Quais são os maiores entraves, maiores problemas, para o desenvolvimento da fonte solar fotovoltaica?

Koloszuk: Falta uma visão de estado. Esperamos que isso seja corrigido nesse novo governo. É preciso ter uma visão estratégica, não de curto prazo, uma visão para daqui dez anos, que perpassa governos. Nos últimos anos a fonte cresceu mesmo em meio à recessão, e ainda assim conseguimos expandir. Com a economia crescendo, a energia solar fotovoltaica vai crescer mais rápido ainda, porque a demanda vai ajudar. A RN 482, uma das regulamentações para a geração distribuída brasileira, considerada uma das mais modernas do mundo, passa por um momento de revisão, pela Aneel. Essa revisão traz alguma insegurança, algumas incertezas para quem pensa em investir no setor.

FULL: Recentemente, o estado da Califórnia (EUA) adotou diretrizes para implantar a tecnologia solar fotovoltaica em todas as residências a partir de 2020 e em edificações comerciais a partir de 2030. Pensando no Brasil, é algo ainda muito longe da nossa realidade?

Koloszuk: Os incentivos para a energia solar fotovoltaica no Brasil são praticamente zero. Quando você olha para o que o mundo está fazendo para a energia solar fotovoltaica, percebemos que é possível fazer muita coisa. A Califórnia, como você citou, é um estado superdesenvolvido. A energia solar fotovoltaica lá é uma realidade. Mas no Brasil, quando você sai para andar pelas ruas, quantos telhados se encontra com sistemas fotovoltaicos? Quase nenhum. O consumidor não pode escolher quem será seu fornecedor de energia. A única escolha é colocar um sistema fotovoltaico no telhado, dando liberdade ao consumidor. Costumo dizer que o setor de energia é o setor de telecomunicações de 20 anos atrás, que passa por uma enorme transformação. Vamos fechar os olhos e quando abrirmos vamos ter um setor completamente transformado.

FULL: Grandes empresas chinesas têm feito altos investimentos e aquisições no setor energético brasileiro. Como isso pode beneficiar o setor de energia solar?

Koloszuk: O mercado, o capital privado, enxerga sempre oportunidades. Se o capital está vindo para o Brasil, é porque está enxergando oportunidades por aqui. Para quem investe em energia solar fotovoltaica, tem que ver isso como um mercado ainda maior. Hoje, em São Paulo, você tem uma demanda de energia muito grande durante o dia, mas em pouco tempo vai haver um crescimento muito grande de demanda de energia para o período noturno, por conta do advento do carro elétrico, da internet das coisas. Esse aumento é bom para o setor como um todo, mas também é muito bom para o setor de energia solar fotovoltaico, para quem produz sua própria energia.

FULL: A implantação de painéis de energia solar fotovoltaica tem sido uma tendência em ambientes rurais no país. Como essa iniciativa pode beneficiar os produtores rurais?

Koloszuk: É a redução de custos de produção. Temos hoje, para produtores rurais, uma das linhas de financiamento mais baratas, que é o Pronaf, com juros muito baixos. Nesse cenário, o produtor rural que faz o investimento em sistemas fotovoltaicos consegue reduzir muito o custo da energia. Percebemos que o produtor rural já enxergou essa enorme possibilidade e está investindo em sistemas fotovoltaicos, justamente para poder ser mais competitivo.

FULL: A participação da fonte solar fotovoltaica ainda é pouco expressiva na matriz energética brasileira. Você tem mais dados sobre essa participação? Como mudar esse cenário?

Koloszuk: Atualmente, a energia solar fotovoltaica representa 0,8% da matriz energética brasileira. A projeção da EPE (Empresa de Pesquisa Energética), para 2030, é de que a energia solar fotovoltaica representará 10% da matriz. Um crescimento bastante acentuado em apenas 11 anos. Outros estudos apontam que, em 2040, a energia solar fotovoltaica representará 32% da matriz elétrica. Ou seja, ultrapassará as hidrelétricas em geração de energia. A fonte número 1 do Brasil será a fotovoltaica. As projeções falam por si só. O mundo do futuro é do carro elétrico, da energia limpa, da energia solar fotovoltaica.

FULL: Hoje a fonte renovável com maior presença na matriz energética brasileira é a eólica. A solar fotovoltaica precisa seguir os passos da precisa seguir os passos da eólica?

Koloszuk: A eólica é uma excelente fonte, mas está restrita a algumas localizações no Brasil, em que necessariamente tem que ter o fator vento. Já a solar não. Em qualquer lugar do Brasil, seja em campos, fazendas, usinas de solo, usinas de pequeno ou grande porte, no telhado de residências, empresas, comércios, não há restrição. O Brasil todo é uma oportunidade de crescimento, e a tendência de queda de custo dos equipamentos solares é muito acentuada.

Essa matéria foi publicada na 34ª edição da revista Full Energy. Clique e confira a publicação.