Transição energética: como o Brasil pode avançar com minerais estratégicos

Estudo mostra que o Brasil tem potencial para ampliar presença nas cadeias globais de minerais estratégicos, mas precisa superar gargalos de infraestrutura, tecnologia e governança

 

O mundo vive uma corrida silenciosa, porém decisiva, pela segurança mineral. À medida que a transição energética acelera, cresce a demanda por insumos essenciais para tecnologias de baixo carbono — como baterias, turbinas eólicas e painéis solares. Nesse contexto, o Brasil desponta como um país-chave para a oferta de minerais estratégicos, graças à sua diversidade geológica e à posição geopolítica estável.

O estudo “Minerais Estratégicos no Brasil: Oportunidades de Produção e Inserção no Mercado Global”, publicado pela FGV Energia, revela que o país possui grandes reservas de lítio, níquel, cobre, manganês, grafita e terras raras, elementos indispensáveis para a transição energética global. Entretanto, o levantamento também destaca que o aproveitamento desse potencial ainda é limitado por desafios de infraestrutura, regulação e inovação tecnológica.

Segundo Luiza Guitarrari, pesquisadora da FGV Energia, “o Brasil dispõe de um volume expressivo de reservas de minerais, estando posicionado como um ator relevante no mercado mineral global e ocupando posição central nos debates sobre o fortalecimento do setor em diferentes fóruns internacionais”. A pesquisadora pondera, no entanto, que ainda é preciso superar lacunas de pesquisa e mapeamento geológico, etapa essencial para impulsionar novos investimentos em prospecção e produção mineral.

Com reservas expressivas e papel relevante na transição energética, o Brasil está diante de uma janela histórica: fortalecer a produção de minerais estratégicos, atrair investimentos e se inserir nas cadeias globais de valor. Mas o avanço exige coordenação entre governo, empresas e ciência.

Potencial mineral e protagonismo possível

O estudo aponta que o Brasil está entre os dez maiores produtores mundiais de nióbio, ferro, bauxita e manganês, e começa a consolidar uma posição relevante na exploração de lítio e grafita natural, minerais cada vez mais valorizados em função da mobilidade elétrica e do armazenamento de energia.

De acordo com Guitarrari, apenas 27% do território brasileiro está mapeado na escala 1:100.000, considerada a mais adequada para subsidiar decisões de investimento em prospecção mineral. Ela explica que políticas recentes, como o novo PAC 2023–2027, destinam R$ 306,7 milhões para enfrentar esse gargalo, sendo R$ 52 milhões voltados a atividades de mapeamento geológico, levantamento geoquímico e avaliação de minerais estratégicos.

Apesar do potencial, a pesquisadora ressalta que a expansão do conhecimento geológico nacional deve vir acompanhada de políticas públicas consistentes e instrumentos legais capazes de impulsionar investimentos em infraestrutura sustentável e tecnologias de baixo carbono.

Minerais e transição energética

Os minerais estratégicos são a base material da transição energética. A FGV Energia destaca que a produção global desses insumos precisa triplicar até 2040 para atender à demanda projetada pelo crescimento das tecnologias limpas. O Brasil, com sua abundância geológica, tem a oportunidade de se posicionar como fornecedor confiável e sustentável, especialmente em um momento em que cadeias globais estão sendo redesenhadas por questões geopolíticas e ambientais.

Luiza Guitarrari, pesquisadora da FGV Energia

Para Guitarrari, o aproveitamento pleno do potencial mineral brasileiro dependerá do fortalecimento das cadeias locais de processamento e da integração com o setor industrial, de modo a agregar valor à produção e reduzir a dependência tecnológica externa. “Esse processo é essencial para assegurar o fornecimento estratégico de insumos e aumentar a competitividade do país nas cadeias globais de minerais”, afirma.

Oportunidades e desafios

Entre as principais oportunidades mapeadas pelo estudo estão:

  • Expansão da produção de lítio, níquel e cobalto voltados à indústria de baterias;
  • Aproveitamento sustentável de terras raras, insumos essenciais para turbinas eólicas e veículos elétricos;
  • Desenvolvimento de cadeias locais de processamento e refino, agregando valor à exportação de minérios;
  • Atração de investimentos internacionais por meio de estabilidade regulatória e incentivos fiscais.

Ainda assim, os desafios permanecem significativos. O relatório cita a falta de integração entre as políticas mineral, energética e industrial, além da necessidade de fortalecer a infraestrutura logística e o ambiente de inovação.

A pesquisadora observa que a crescente busca internacional por diversificação de fornecedores cria uma janela de oportunidade para o Brasil, já que diversas economias tentam reduzir sua dependência de um único mercado. “Aproveitar essa conjuntura exigirá maior segurança jurídica aos investidores e incentivos voltados à inovação e sustentabilidade, em consonância com práticas internacionais e padrões ESG”, completa Guitarrari.

Integração e sustentabilidade como caminhos

De acordo com a pesquisadora, os objetivos do Governo Federal, expressos no Plano Nacional de Mineração 2050, reforçam a necessidade de integração entre a transição energética e o mercado mineral, a partir da incorporação de critérios de sustentabilidade, inovação tecnológica e agregação de valor às cadeias produtivas.

Luiza Guitarrari, pesquisadora da FGV Energia, no lançamento do caderno de pesquisa.

Ela destaca, contudo, que a adoção de práticas ambientais e sociais responsáveis permanece como um dos principais desafios do setor mineral brasileiro. Questões como gestão de rejeitos, uso de recursos hídricos, proteção de ecossistemas e comunidades locais, além da morosidade nos processos de licenciamento ambiental, são determinantes para garantir a atratividade de novos investimentos.

“Caso tais entraves não sejam superados, o país corre o risco de perder espaço para economias que já alinharam políticas industriais, ambientais e tecnológicas, consolidando-se como polos de referência na nova geopolítica dos minerais críticos e estratégicos”, avalia Guitarrari.

Ela acrescenta ainda que estudos do Banco Mundial apontam o alinhamento entre exploração mineral, capacitação técnica, inovação tecnológica e políticas intersetoriais — conectando energia, indústria e meio ambiente — como pilares fundamentais para o desenvolvimento sustentável da mineração, reforçando o papel do setor na segurança econômica e nos compromissos climáticos de longo prazo.

Síntese

A nova geoeconomia da energia é, também, a geoeconomia dos minerais. E o Brasil, com sua riqueza subterrânea e matriz energética limpa, tem condições únicas de liderar essa transformação.

Para isso, o país precisará alinhar política mineral, segurança energética e inovação tecnológica, fortalecendo a cooperação entre governo, empresas e universidades. A janela de oportunidade é clara — e, como destaca Luiza Guitarrari, “o momento de agir é agora”.

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