Xisto: revolução ou problema?

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O Brasil tem a 10ª maior reserva mundial de gás de xisto; por causa dos riscos ambientais, ativistas e comunidades lutam contra a exploração desta fonte energética no país

 

O gás de xisto é um gás natural encontrado internamente em uma espécie de rocha sedimentar porosa, denominada xisto (ou folhelho). Quanto às suas características, o gás de xisto é praticamente o mesmo que o gás tradicional derivado do petróleo. Pelo que se tem nota, o gás de xisto foi explorado pela primeira vez em 1920 na União Soviética, na região onde hoje fica a Estônia, sendo aplicado em fábricas de alcatrão, benzina e gás.

Também conhecido como “gás não convencional”, o grande diferencial desta fonte energética está em sua forma de produção, uma vez que se encontra comprimido em pequenos pedaços dentro das rochas. Dessa forma, para sua retirada, se faz necessária a utilização de pressão hidráulica para que pequenas fraturas na rocha sejam criadas, num processo denominado “fraturamento” (fracking). A partir deste processo, o gás de xisto pode ser retirado.

O processo de fraturamento parece simples e de fácil realização, mas necessita de uma avançada tecnologia, utilizada tanto para perfurar como para estimular as zonas da rocha que englobam o gás.

Principal empregador mundial desta fonte energética, os EUA passaram por uma explosão, nos anos 2000, na utilização do gás de xisto (share gas, em inglês), chegando a suprir em torno de um quarto das necessidades energéticas do país. As principais aplicações são: aquecimento de casas; geração de eletricidade; e diversas aplicações em fábricas e indústrias.

O barateamento dos custos da utilização do gás contribuiu para este processo, o que inclusive é visto como uma revolução energética no país e com impacto global, uma vez que os EUA são os maiores consumidores de energia do mundo e, com o share gas, passam a sonhar em atingir a independência energética.

 

PROBLEMAS AMBIENTAIS

No entanto, na mesma proporção que a exploração do gás de xisto avançou comercialmente nos EUA e em outras partes do mundo, como no Canadá, também passaram a ganhar notoriedade vários problemas ambientais decorrentes de sua exploração.

  • Água misturada a produtos químicos

A técnica de extração do gás não convencional consiste na injeção de milhões de litros de água misturados a produtos químicos e areia para gerar fraturas na rocha. Toda a água usada no processo de extração retorna à superfície, poluída por hidrocarbonetos e por outros compostos e metais presentes na rocha e pelos próprios aditivos químicos. Além do risco de contaminação de áreas vizinhas, o processo pode permitir que os gases acumulados nas rochas cheguem a aquíferos e águas superficiais.

  • Ocorrência de tremores

Estudos também relacionam a injeção de água residual no subsolo ao aumento da ocorrência de tremores nos Estados Unidos. Um deles, realizado pelo Serviço Geológico do país (USGS), indica que o número de tremores aumentou dramaticamente ao longo dos últimos anos. Mais de 300 terremotos acima de magnitude 3,0 ocorreram a cada três anos entre 2010-2012, em comparação com uma taxa média de 21 eventos por ano, observadas entre 1967 e 2000. Os cientistas da USGS descobriram que em alguns locais o aumento da atividade sísmica coincide com a injeção de efluentes em poços de descarte.

Outra suspeita é de que o aumento da atividade em poços de gás natural alterou tensões em áreas suscetíveis a terremotos, aumentando a pressão de poros fluidos nas rochas subterrâneas, lubrificando falhas pré-existentes e deixando-as mais propensas à ruptura.

  • Poluição em rios

Os fluidos poluídos do fraturamento hidráulico são apontados como a causa da morte de espécies aquáticas em rios próximos às áreas de exploração onde foram verificados vazamentos.

  • Emissões de metano

Apesar de poluir menos que o carvão, a extração de gás de xisto pode emitir na atmosfera, de maneira fugitiva, volumes nada desprezíveis de metano, um gás 20 vezes mais potente que o CO2.

 

 

GÁS DE XISTO NO BRASIL

 

A busca pelo gás de xisto no território brasileiro também ocorre, apesar da falta de um marco regulatório claro sobre como as explorações devem ocorrer e da carência de estudos aprofundados sobre os riscos socioambientais da extração de gás não convencional. O país possui a décima maior reserva recuperável estimada de gás de xisto do mundo.

Consultado pela Revista Full Energy, o Ministério de Minas e Energia não passou informações sobre o posicionamento do governo brasileiro quanto ao gás de xisto. O MME apenas afirmou que “não há previsão de exploração de gás não convencional para as rodadas de leilões de 2017”.

 

Segundo o professor de Planejamento Energético da Coppe/UFRJ (Instituto “Alberto Luiz Coimbra” de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro), Alexandre Szklo, não há estimativas adequadas das reservas brasileiras do gás de xisto, uma vez que o país não possui uma exploração comercial desta fonte. “O que temos são estimativas do volume de share gas no Brasil, mas nem todo este volume seria rigorosamente recuperável.”

O conhecimento disponível é um estudo do serviço geológico norte-americano que indica a quantidade do recurso que há no subsolo ao qual se tem tecnologia para recuperar – “o que não significa que é viável de se explorar”.

O professor Szklo relata que a ANP (Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) fez uma estimativa própria sobre os recursos deste gás disponíveis no país. “Tentou analisar a geologia do shale gas no Brasil e com isso atingiu um valor de 8,2 trilhões de metros cúbicos.”

 

Mas a Coppe/UFRJ tem feito uma avaliação diferente. Na análise da instituição, o que deve limitar a exploração do gás de xisto não é a presença do recurso, mas sim outros fatores. Na sequência estão alguns deles.

– A disponibilidade de recursos hídricos para realizar o fraturamento hidráulico precisa ser adequada para que se tenha um ritmo viável de exploração de poços de share gas. “No estudo da Coppe, o Brasil tem diferentes bacias com potencial. O que não seria o caso, por exemplo, do Norte do Rio São Francisco, que não teria disponibilidade de água para se fazer uma exploração intensa.”

 

– Não adianta ter o recurso se não há conhecimento do potencial da curva de recuperação deste recurso. “Se o gás estiver muito preso na rocha, por mais que se perfure, fica difícil de recuperar. Não temos o perfil de recuperação de produção de poços de share gas no Brasil.”

 

– O ritmo de perfuração de poços precisa ser considerado. É que a curva de produção de um poço de share gas, seja ele muito ou pouco produtivo, atinge o pico. “Rapidamente se extrai o máximo de um poço, que passa a declinar também rapidamente.” Quando isto acontece, é necessário perfurar mais um poço, justificando o surgimento de uma indústria de serviços de perfuração disponível no local.

 

– O país precisa ter uma lógica de licitação dos blocos de gás não convencional diferente do que tem hoje para petróleo e gás convencional. “Na verdade, para óleo e gás convencional o grande problema é encontrar o óleo e o gás, e não captá-lo. O problema do gás não convencional não é a dificuldade em descobri-lo, mas sim a possibilidade de se manter uma produção intensa, contínua e com alto padrão de recuperação.”

– O regime fiscal atual para óleo e gás convencional não está adequado para o não convencional, de modo a permitir o surgimento de uma “fábrica de poços”.

– Nem todas as áreas em que há recursos de gás não convencional têm ramais de  gasoduto por perto. “Se não há esta estrutura, não adianta produzir o gás. Podemos construir o gasoduto, mas aí tem o problema de timing. Um poço de share gas nos EUA tem vida de cinco anos. No Brasil, hoje, não se constrói um ramal de gasoduto em menos de sete anos.” Se não há gasoduto, o produto extraído tem de ser destinado à geração elétrica, uma vez que não há logística de escoamento para atender o mercado de gás.

– A Coppe fez uma simulação para o Brasil considerando o ritmo de perfuração de poços. “Chegamos numa previsão de produção de gás não convencional no país para 2030, se construirmos um poço horizontal por dia: em torno de 15 milhões de metros cúbicos/dia.”

Para o professor Szklo, o Brasil não está preparado para o gás de xisto. Não há regulamentação fiscal, nem ambiental. Caso tais medidas sejam tomadas, o país irá limitar as áreas em que será permitido fazer a perfuração.

Segundo ele, talvez a bacia do Rio Paraná seja a mais adequada no país para a exploração do share gas, uma vez que está próxima de gasoduto. “Não temos como dizer se vale a pena explorar esta fonte energética no Brasil, mas certamente não seria viável em todas as bacias.”

Para Alexandre Szklo, os ativistas que levantam bandeira contra os riscos do gás de xisto têm razão em vários pontos. “Com relação ao uso intensivo de água, não tem como perfurar poços intensamente sem utilizar muito o recurso hídrico. Para suprir esta demanda por água, tem que levar caminhões pipa, porque os poços mudam de posição, o que acarreta tráfego intenso de caminhões.”

Ou seja, a exploração destes poços traria impacto sobre a demanda de água e a intensificação do uso da malha rodoviária. “Também há o problema do descarte da água. Entre 50% e 60% do reservatório injetado retorna. Como se coloca aditivos químicos, embora em pouco volume, há o risco de esta água atingir aquíferos subterrâneos.”

Também há o registro de pequenos abalos sísmicos atribuídos à exploração do share gás que devem ser estudados. Outra questão é a ocupação do solo. “Ocupa-se uma área grande de solo para se fazer a exploração contínua.”

Segundo o professor da Coppe/UFRJ, há a necessidade de, antes de entrar com o processo de exploração desta fonte no Brasil, fazer estudos adequados dos riscos inerentes a ela. “Mas isso não significa que não se deve fazer a produção do gás de xisto no país, mas são imprescindíveis os devidos estudos e aprender a lidar com os riscos relacionados à exploração.”

 

DE OLHOS NOS RISCOS

Na opinião da advogada e ativista Nicole Figueiredo de Oliveira, diretora da 350.org para a América Latina e coordenadora nacional da Coesus (Coalizão Não Fracking Brasil), recorrer à exploração do gás de xisto no Brasil não vale a pena, independente de onde se realiza a perfuração. “É uma tecnologia cara, tanto no sentido da operação como pelo ônus da recuperação dos estragos que este gás provoca.”

Ela destaca que, no Brasil, foram leiloados blocos de xisto desde 2013 sobre os principais aquíferos do país e em terras produtivos agrícolas, como no estado do Paraná, que tem o segundo maior PIB (Produto Interno Bruto) agrícola brasileiro.

“Se já existe uma economia local – fortemente calcada na agricultura, no caso do Paraná – e temos potencial pare recorrer a outras fontes de energia, não vale a pena essa exploração.”

Nos Estados Unidos, vários estudos em regiões de exploração do gás de xisto comprovam que as águas superficiais e subterrâneas foram contaminadas pelo fracking.

O movimento coordenado por Nicole levou uma comitiva de autoridades brasileiras para conhecer de perto os impactos da exploração de gás de xisto na Argentina. “Eles viram que o consumo de água no país é de 70 milhões de litros por poço. E é água potável, que não pode ser recuperada depois, porque volta com vários produtos químicos, como chumbo e outras substâncias.”

No país vizinho, várias localidades têm registrado aumento de problemas de saúde decorrentes da ingestão de água contaminada, como gastrointerite, segundo ela. Nicole também relata a existência de poços de share gas no meio de plantações de maça, pera, pêssego, uva e cereja.

“Estamos sempre atentos, tentando alertar a sociedade contra os riscos da exploração deste combustível fóssil”, conclui Nicole.

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