KPMG indica Brasil como líder potencial da transição energética

Relatório global da KPMG, Energy Institute e Kearney aponta que o país tem condições únicas para liderar a transição energética mundial, mas precisa vencer gargalos estruturais e coordenar políticas de longo prazo

 

A transição energética mundial avança, mas de forma desordenada. É o que revela o relatório “2025 Statistical Review of World Energy”, elaborado pela KPMG, o Energy Institute e a consultoria Kearney. O estudo aponta um cenário global em que a busca pela descarbonização se mistura a tensões geopolíticas, políticas industriais nacionalistas e estratégias divergentes entre países. Nesse contexto fragmentado, o Brasil surge como uma das nações mais bem posicionadas para liderar a transição energética, embora ainda enfrente desafios que limitam seu potencial.

 

Com matriz elétrica 88% renovável, abundância de recursos naturais e posição geopolítica neutra, o Brasil desponta como um dos protagonistas potenciais da nova economia da energia — desde que avance em infraestrutura, digitalização e planejamento industrial integrado.

 

De acordo com o levantamento, o consumo total de energia no Brasil cresceu 1,3% em 2024, alcançando 2,97 trilhões de kWh, acompanhado de um aumento de 5,3% na produção de eletricidade. As fontes renováveis tiveram expansão de 3,3%, atingindo 651,3 TWh e consolidando uma matriz elétrica composta por 88% de energia limpa. Esse perfil coloca o país entre os mais sustentáveis do mundo — um diferencial estratégico no momento em que cadeias produtivas verdes se tornam foco de competição internacional.

“O Brasil reúne ativos únicos para protagonizar a nova economia da energia”, afirma Manuel Fernandes, sócio-líder de Energia e Recursos Naturais da KPMG no Brasil e na América do Sul. “Mas é preciso superar limitações históricas, como infraestrutura defasada e ausência de uma política industrial articulada.”

O relatório ressalta que a produção de petróleo e gás natural caiu 0,5% e 2,5%, respectivamente, entre 2023 e 2024, enquanto as importações de gás aumentaram 17,7% e as de GNL cresceram 71,4%. Esses dados revelam vulnerabilidades na segurança energética nacional, mesmo com grandes reservas e potencial de autossuficiência.

Fragmentação global e oportunidades locais

O estudo aponta que o mundo vive uma transição fragmentada, com países avançando em ritmos distintos. Economias desenvolvidas enfrentam desafios de custo e competitividade na expansão das renováveis, enquanto emergentes — como China, Índia e Brasil — ampliam seu protagonismo ao combinar industrialização e energia limpa.

Em 2024, as energias solar e eólica cresceram globalmente 16%, nove vezes mais rápido que a demanda total de energia. Porém, as emissões de carbono também aumentaram 1%, atingindo 40,8 gigatoneladas de CO₂ equivalente — um novo recorde. A coexistência entre crescimento de renováveis e expansão dos combustíveis fósseis reforça a tese de uma transição “de adição”, não de substituição. O que o relatório descreve como uma transição energética marcada por forças opostas: eletrificação acelerada e persistência dos fósseis; inovação tecnológica e políticas descoordenadas.

Nesse ambiente, o Brasil ganha vantagem competitiva. A matriz renovável, combinada com abundância hídrica, potencial solar e eólico, permite ao país oferecer energia limpa e previsível a cadeias globais em busca de fornecedores sustentáveis. Além disso, a posição geopolítica neutra e o papel crescente no mercado de biocombustíveis fortalecem o protagonismo brasileiro na nova geoeconomia da energia.

Gargalos estruturais

Apesar das vantagens, o relatório alerta para entraves importantes: 

  • baixo investimento em infraestrutura digitalizada;
  • armazenamento e redes inteligentes; 
  • falta de integração entre política energética, industrial e ambiental. 

Sem planejamento de longo prazo, o país corre o risco de perder espaço na corrida por cadeias verdes globais.

Segundo Fernandes, “segurança jurídica e infraestrutura são os principais temas”. O executivo defende ainda que garantir previsibilidade regulatória e estabilidade de regras é essencial para atrair investimentos de longo prazo e permitir que o país avance na transição energética de forma sustentável.

O documento também destaca o aumento das importações de gás natural e GNL, que expõe a dependência de insumos estratégicos externos. A falta de capacidade de refino e o atraso em modernização da malha de transmissão são citados como desafios para garantir autonomia e segurança energética.

Fernandes, afirma que modernizar a regulação do mercado spot e de transmissão é um passo fundamental para incorporar a crescente penetração de renováveis e o uso de baterias. Ele também aponta a importância de ampliar a capacidade de transmissão, conectando a energia limpa e abundante do Nordeste aos grandes centros de consumo.

De acordo com a KPMG, a janela de oportunidade é clara, mas estreita, e depende de ação coordenada entre governo, empresas e academia para transformar potencial em liderança efetiva.

Uma liderança possível

O sócio da KPMG também defende a modernização do grid brasileiro, com medidores inteligentes e tarifas mais dinâmicas, o que pode gerar ganhos diretos de eficiência energética. Ele observa que os projetos em energia eólica e solar ainda são fortemente subsidiados, o que encarece as tarifas, e argumenta que mecanismos de precificação mais flexíveis, que permitam ao consumidor escolher o horário de consumo ou de recarga de veículos elétricos, podem estimular o uso racional da energia.

Outro ponto de atenção destacado por Fernandes é o furto de energia, estimado em cerca de R$10 bilhões por ano. Ele avalia que novos modelos de cobrança, como o pré-pagamento, poderiam ajudar a reduzir perdas e promover maior sustentabilidade financeira no setor.

Globalmente, o relatório evidencia que o investimento em renováveis é cada vez mais visto como ferramenta de segurança energética, reduzindo dependência de combustíveis importados e protegendo economias de choques de preços. Na Europa, por exemplo, a transição acelerada após a crise do gás russo levou à queda de 13% na demanda de gás em 2022, demonstrando o poder de adaptação de sistemas mais diversificados e digitais.

O Brasil, segundo a KPMG, pode replicar esse movimento com características próprias, transformando suas vantagens naturais em diferencial competitivo global. “Mesmo diante da fragmentação global, o Brasil pode consolidar-se como um provedor de energia limpa e confiável, essencial para cadeias produtivas verdes e metas climáticas globais. Para isso, será necessário superar desafios históricos, como a limitação da infraestrutura de rede, a dependência de importações estratégicas e a ausência de uma política industrial articulada”, explica Fernandes. 

Síntese

A “Revisão das Estatísticas de Energia Mundial 2025” oferece um retrato inequívoco: o futuro da energia será elétrico, renovável e digital — mas também competitivo e desigual. O Brasil, com sua matriz limpa e abundância de recursos, tem tudo para ser referência global, desde que invista em planejamento, inovação e integração entre setores.

Em um cenário mundial de incertezas e fragmentação, a liderança brasileira pode ser não apenas desejável, mas necessária.

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