Projetos avançam no Brasil, mas custos de produção e busca por compradores ainda desafiam a expansão do mercado
O mercado brasileiro de hidrogênio verde começa a avançar de uma fase de expectativas para uma etapa mais voltada à viabilidade dos negócios.
Essa avaliação foi apresentada por especialistas durante a live “Hidrogênio verde: promessa, aposta estratégica ou hype?”. O evento integra o projeto Transição Energética.
Nesse cenário, os investimentos estrangeiros já começam a ganhar espaço. Em junho, a União Europeia anunciou € 3 milhões para nove projetos de hidrogênio verde no Brasil. A iniciativa ocorre por meio do programa H2Uppp, implementado pela Agência Alemã de Cooperação Internacional (GIZ).
Segundo Isabela Santos, coordenadora do H2Uppp Brasil, os novos projetos se somam a outras oito iniciativas apoiadas pela organização no país.
As empresas envolvidas atuam em diferentes etapas da cadeia, desde a produção até o consumo do combustível. Entre os projetos estão iniciativas de e-metanol, combustível sustentável de aviação (SAF) e descarbonização da indústria automotiva.
Além disso, parte das iniciativas prevê a criação de corredores verdes entre portos brasileiros e europeus. O objetivo é viabilizar a exportação de hidrogênio verde, amônia e aço produzido com menor emissão de carbono.
Mercado interno também impulsiona o hidrogênio verde
Embora a demanda internacional seja relevante, o mercado brasileiro apresenta oportunidades próprias para o hidrogênio verde.
De acordo com Paulo Emilio Valadão de Miranda, professor da Coppe-UFRJ e presidente da Associação Brasileira do Hidrogênio (ABH2), um estudo da entidade identificou 34 projetos no país.
Essas iniciativas podem alcançar uma produção anual de até 4,6 milhões de toneladas de hidrogênio de baixa emissão a partir de 2035. A demanda projetada para o período chega a 3,7 milhões de toneladas.
Entre os projetos estão cinco iniciativas voltadas à produção e ao consumo interno. O Ministério de Minas e Energia apoia essas iniciativas, que incluem projetos de grandes empresas como CSN e Petrobras.
Além disso, 95% dos projetos mapeados pela ABH2 também planejam produzir amônia. O produto pode atender ao setor marítimo ou ser utilizado na fabricação de fertilizantes.
A estratégia também pode ampliar o valor agregado das exportações brasileiras. Segundo Miranda, o hidrogênio pode contribuir para reduzir as emissões associadas à produção de minério de ferro e aço.
Empresas como Vale e Green Energy Park já trabalham com tecnologias para reduzir diretamente o minério utilizando hidrogênio.
Dessa forma, o aço brasileiro pode ganhar competitividade no mercado europeu. A região adota mecanismos de taxação para produtos associados a processos industriais com maior emissão de carbono.
Custo ainda limita expansão
Apesar do potencial, o custo continua entre os principais desafios para o avanço do hidrogênio verde no país.
Atualmente, a eletrólise da água é uma das principais formas de produção. O processo utiliza eletricidade para separar moléculas de água em hidrogênio e oxigênio.
Segundo Miranda, o custo desse método pode variar de R$ 10 a R$ 70 por quilo. Por isso, o especialista defende investimentos em alternativas que utilizem outras matérias-primas.
Uma dessas possibilidades é a produção a partir de biomassa. Nesse caso, o custo estimado varia entre R$ 7 e R$ 20 por quilo.
Um dos projetos apoiados pelo H2Uppp utiliza resíduos da produção de suínos em Toledo, no Paraná. A iniciativa busca transformar esses resíduos em matéria-prima para a produção de SAF.
Além do custo, encontrar compradores também representa um desafio para a expansão do mercado. A avaliação é de que contratos de longo prazo podem contribuir para dar maior segurança aos investimentos.
“Nos últimos anos, os projetos no Brasil têm deslanchado. Houve um hype, mas estamos agora com o ‘crème de la crème’: quem quer fazer negócio nesse setor, vai fazer”, afirmou Isabela Santos.
Assim, o mercado brasileiro começa a deixar a fase de expectativa para entrar em uma etapa de seleção dos projetos com maior potencial de execução.
















