Professor da Duke University fala com a exclusividade para Full Energy

Em uma entrevista, Dan Vermeer explica o setor energético mundial e brasileiro com perspectivas acadêmicas

Recentemente, a Full Energy publicou um artigo do professor e diretor executivo do Centro para Energia, Desenvolvimento e Meio Ambiente Global (EDGE), Duke University. Neste artigo, Dan Vermeer e outros autores, apresentam o estudo “Ocean 100” o qual mostra que um número pequeno de empresas é responsável por mais da metade da “economia oceânica”.

Esse coletivo de empresas transnacionais faturou US$ 1,1 trilhão em 2018, segundo o relatório publicado no jornal científico Science Advances. Inclusive, a única brasileira da lista é a Petrobras que aparece em segundo lugar entre as 100 maiores companhias dos oceanos, e integra o grupo dominante da economia offshore: as empresas de petróleo e gás.

Para explicar mais sobre o estudo, a Full Energy traz uma entrevista exclusiva com Dan Vermeer, professor da Fuqua School of Business – escola de negócios da Duke University.

 

Como você analisa o setor de energia global hoje?

Até recentemente, o setor de energia era caracterizado por um planejamento de longo prazo e estabilidade. No entanto, há uma variedade de motivadores para mudanças rápidas e disruptivas que estão impactando cada vez mais o setor. Esses incluem:

– À medida que o impacto da pandemia começa a diminuir em algumas partes do mundo, há uma recuperação dramática na demanda de energia. À medida que as economias se recuperam, as pessoas voltam a trabalhar e viajar, e assim o desenvolvimento de infraestrutura acelera.

– As demandas por descarbonização estão ficando fortes a cada dia. Parte disso se deve ao crescente interesse dos investidores em compreender os impactos ambientais, sociais e de governança dos negócios em que investem. Em particular, há intensa pressão sobre a indústria de petróleo e gás para reduzir sua pegada de carbono e impacto ambiental, investir mais pesadamente em energia renovável e fazer a transição para empresas de energia mais amplas.

– As energias renováveis, como a eólica e a solar, continuam a crescer rapidamente à medida que a tecnologia melhora e os custos são reduzidos drasticamente. No entanto, o crescimento das energias renováveis ​​não implica necessariamente uma redução da demanda por combustíveis fósseis. Na verdade, a longo prazo, a demanda por carvão, petróleo e gás tem se mantido estável nos mercados de todo o mundo.

– Essa dinâmica colocou as empresas de petróleo e gás em uma posição desafiadora. Por um lado, seu negócio principal na produção de petróleo e gás continua a ser lucrativo em muitas partes do mundo, e serão necessárias no futuro. Ao mesmo tempo, os investidores estão cada vez mais impacientes com o lento ritmo de transformação dessas empresas, especialmente à medida que os impactos das mudanças climáticas se tornam mais evidentes.

– Um elemento-chave da transição energética é mover grandes partes de nossa infraestrutura dos combustíveis fósseis para a eletrificação. A ideia aqui é mover o máximo possível de nosso uso de energia para a eletricidade, ao mesmo tempo que descarbonizamos o fornecimento de energia. Essa estratégia de duas partes é crítica para atingirmos as metas de descarbonização rápida necessárias para nos manter abaixo de 1,5ºC nas mudanças climáticas nas próximas décadas.

– Outro elemento intrigante na descarbonização de nossa infraestrutura é a introdução do hidrogênio verde. Embora o hidrogênio seja usado há muito tempo para aplicações industriais, ele é tradicionalmente produzido com gás natural ou carvão. Uma vez produzido, o hidrogênio verde pode ser usado em uma variedade de aplicações, incluindo produção de aço, produção de cimento, aquecimento industrial e agricultura.

– A energia eólica offshore também está ganhando uma posição importante no fornecimento global de energia. Até agora, a Europa tem dominado este setor, usando turbantes eólicos offshore para gerar um fornecimento significativo de eletricidade livre de carbono para a rede europeia. No entanto, mais recentemente, os EUA, China, Arábia Saudita, Chile e muitos outros países anunciaram planos de investimento ambiciosos para integrar a energia eólica offshore no fornecimento de energia.

– Finalmente, os cientistas estão alarmados de que o ritmo de descarbonização está se movendo muito devagar, o mundo enfrenta consequências catastróficas se não puder deter o pedaço da mudança climática. A escala e a velocidade da transformação da energia devem aumentar substancialmente para evitar os piores resultados.

 

Quais são os próximos passos ambientais e econômicos para as empresas que atuam no setor de energia?

Vejo 4 temas principais que devem ser priorizados para enfrentar a crise climática:

– Descarbonização: Aumento do investimento e da implantação de energias renováveis, armazenamento, rede inteligente, focando especialmente em setores difíceis de reduzir.

– Digitalização: Integração de dados e novas tecnologias para otimizar sistemas, substituindo o uso de recursos por inteligência.

– Descentralização: novos sistemas são inerentemente mais distribuídos, por isso precisamos de sistemas mais interativos, sensíveis e autogerenciados para orquestrar esses sistemas da maneira mais eficiente possível.

– Resiliência: essas mudanças também criam vulnerabilidades únicas – mais ameaças das mudanças climáticas, ciberterrorismo, sistemas mais complexos que podem falhar.

 

Qual segmento, pensando em energias renováveis, vai ganhar espaço nos próximos anos?

Solar será destaque – a economia desta tecnologia a tornará a fonte de energia de escolha na maioria dos lugares para eletricidade. A energia eólica offshore crescerá rapidamente, já que os ventos consistentes e a escala de geração tornarão esta fonte de energia popular em muitos países. O hidrogênio verde é importante porque aborda partes particularmente difíceis do problema. Já o carvão e petróleo vão durar por longos períodos, mas o declínio será inevitável, assim como a energia nuclear que possui um futuro incerto.

O armazenamento é cada vez mais importante, especialmente o de longa duração, que pode abranger períodos de vários dias. Isso exigirá tecnologias inovadoras que substituirão as formas atuais de baterias à base de lítio.

 

O que você acha que as empresas de energia devem melhorar para contribuir para um mundo mais verde?

As empresas de energia têm enorme poder, capacidade e influência para ajudar o mundo a se tornar mais sustentável. Em particular, elas podem ajudar a liderar a transição – tem escala e recursos para fazer a transição acontecer -; realinhar o engajamento político – devem apoiar as prioridades da sociedade e parar de intervir para retardar o progresso – e através disso orientar seus modelos de negócios para pensar como uma empresa de energia. Embora possam ter dependido de combustíveis fósseis no passado, eles podem desempenhar um papel fundamental para ajudar a desenvolver formas mais sustentáveis ​​de produzir energia e atender às necessidades das pessoas.

 

Como a pandemia afetou este mercado?

A pandemia está tendo um impacto dramático nos sistemas de energia e nas empresas em todo o mundo. Alguns desses impactos incluem: a urgência de descarbonizar; grandes mudanças no consumo e na economia. Por outro lado, vemos tendências de afastamento de ambientes urbanos densos e de transporte público – o que aumenta o uso de energia. Portanto, o impacto da pandemia é um quadro misto do ponto de vista energético.

 

Como você vê o mercado brasileiro de energia?

O Brasil é líder mundial no desenvolvimento de biocombustíveis para descarbonizar o transporte. Possui algumas das empresas sustentáveis ​​mais inovadoras do mundo. Além disso, é o lar de alguns dos sistemas naturais mais importantes do mundo, como a Floresta Amazônica, o Pantanal e incríveis litorais.

 

Sustentabilidade é uma urgência mundial. Você acredita que as empresas estão procurando por essa urgência?

Certamente existe uma pressão crescente para fazer parte da solução – crescimento de ESG, clima ambicioso e metas de sustentabilidade. Os líderes estão pressionando mais do que a maioria dos governos – Microsoft, Unilever, Natura no Brasil. Mas muitas empresas estão atrasadas e o progresso geral é lento demais. O fato é: para as empresas, é difícil fazer mudanças, a menos que os legisladores, clientes e o público em geral mudem suas prioridades.

 

Como as grandes corporações podem contribuir efetivamente para um futuro mais verde?

Estabelecendo metas ambiciosas; comunicando com suas partes interessadas; demonstrando inovação (tecnologias e modelos de negócios); envolvendo-se em parcerias em todos os setores e concentrando-se não apenas na redução dos impactos negativos do seu negócio, mas também imaginando todas as maneiras pelas quais sua empresa pode atender às necessidades de uma população global cada vez mais rica de forma lucrativa e sustentável.

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