“Uma reflexão sobre o carvão no cenário geopolítico atual”, por Bernardo Lemos, da KPMG

O carvão é responsável por uma fatia de aproximadamente 25% da matriz energética das principais economias mundiais

O mundo vem lutando para diminuir ou até mesmo eliminar a produção dos combustíveis fósseis (petróleo, gás natural e carvão) por conta do potencial de emissão de gases de efeito estufa, que ainda representam cerca de 80% da matriz energética das principais economias mundiais.

Desses, o carvão é responsável por uma fatia de aproximadamente 25%. Quando se trata especificamente de geração de energia elétrica, ela ainda é a fonte mais utilizada, mundialmente, respondendo por aproximadamente 35%.

Porém, a guerra da Rússia com a Ucrânia está fazendo com que os esforços de transição energética sejam reduzidos.

Antes do conflito, o país russo era responsável pelo fornecimento de aproximadamente 40% de todo o gás natural que a Europa consumia.

Devido ao momento atual, a estatal de energia russa Gazprom reduziu a 20% a quantidade desse produto transportado.

Como consequência, os preços desse insumo aumentaram significativamente na região desde o começo do rompimento entre os dois países, impactando fortemente a inflação no continente.

Com a chegada do inverno no hemisfério Norte, há expectativa de aumento da demanda por gás e, caso o equilíbrio na oferta não seja retomado, esse preço pode subir ainda mais.

Nesse cenário de escassez de gás natural, a alternativa que restou à Europa foi a retomada na produção de energia através da queima do carvão mineral.

A Alemanha, um dos países mais dependentes do gás russo, anunciou a decisão de intensificar a queima desse produto durante o inverno.

Essa iniciativa, embora seja contrária ao plano do país de extinguir a utilização do carvão como gerador de energia, foi apresentada como uma prática a ser realizada por um período de transição.

Porém, ainda não há previsibilidade do quão longo será esse lapso temporal.

Assim, temos um contexto no qual a Europa objetiva reduzir a produção de energia através da queima do carvão, reduziu a produção alternando para o gás natural.

Agora, a região se encontra em um momento de escassez desse mesmo recurso e precisa retornar ao carvão, dado que as fontes renováveis ainda não têm potência instalada suficiente para suprir a demanda do continente, especialmente, no inverno.

Nesse cenário, o consumo de carvão se reergueu, atingindo patamares elevados. Neste ano, a demanda global pelo produto está sendo sustentada pelo aumento dos preços do gás natural, que forçou a troca pelos insumos em muitos países e gerou um crescimento econômico para algumas nações, como a Índia.

No entanto, à medida que os preços do gás natural sobem vertiginosamente, o carvão torna-se mais competitivo e, como consequência, os preços internacionais dele também aumentam.

Segundo a Agência Internacional de Energia, no ano passado, depois um período de queda, o consumo mundial de carvão aumentou cerca de 6% em relação ao ano anterior, à medida que a economia global se recuperava da pandemia da covid-19.

E em um relatório divulgado sobre produção de carvão de julho deste ano, a previsão é que o consumo global deverá aumentar 0,7% até dezembro, atingindo 8 bilhões de toneladas.

Dessa forma a economia chinesa, responsável por metade da demanda mundial, irá se recuperar conforme o esperado neste segundo semestre.

A perspectiva é que a produção de carvão em todo o mundo bateria o recorde anual estabelecido em 2013, e com expectativa de maior aumento da demanda no próximo ano, atingindo um novo patamar histórico.

Esse crescimento acentuado contribuiu significativamente para o maior aumento anual das emissões globais de gás carbônico relacionadas à energia em termos absolutos.

Assumindo que há expectativa de incremento do consumo de carvão até 2023, percebe-se que atualmente o mundo enfraqueceu os esforços para a transição energética em busca de uma economia global com emissões líquidas de gás carbônico próximas ao zero.

Ainda que seja temporária, essa guinada do uso do carvão terá impactos no alcance das metas de sustentabilidade, ao logo do tempo, impedindo que esse objetivo seja efetivamente alcançado.

** Artigo escrito por Bernardo Lemos, sócio-diretor de energia e recursos naturais da KPMG no Brasil

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